Parcialidade desavergonhada da comunicação social

por João Salgueiro | 2015.12.30 - 20:35

 

 

Até o Diário de Notícias alinha nesta desfaçatez mesquinha de tomar partido antecipado, por aquele que se julga já ser o vencedor das próximas eleições presidenciais em Portugal.

A comunicação social veio, definitivamente, desembaciar a névoa de “neutralidade democrática” que mantinha ativa e que lançava, sub-repticiamente, para os olhos dos portugueses, sobre a eleição do próximo presidente da República.

Como se não bastasse ter estado uma vida inteira com os holofotes voltados para a sua figura, projetando-a num espelho que lhe responde a toda a hora “não há ninguém mais bonito que eu” para ser presidente da República, Marcelo, distribuindo sorrisos e desfazendo-se em amabilidades, quer para a esquerda, quer para a direita, acena com a “caixa” de “a minha candidatura é a menos gastadora”! Pudera, jogou estrategicamente com o tempo de entrada na corrida presidencial e prosseguiu oportunisticamente os comentários na TV, fazendo crer que é da família de todos, um “amor de pessoa”. Toda a gente gosta do professor. Irá para Belém, substituir “a múmia” e continuará aí a alimentar a ilusão de estar no meio do povo. Manipulação fascista, só comparada à do seu homónimo com as “conversas em família”.

Durante muito tempo, os media fizeram de tudo para desviar as atenções das Eleições Presidenciais, seguindo com essa posição o calendário de apresentação de candidaturas gizado por Marcelo. Depois, cantaram hossanas à decisão do “príncipe”, fizeram-lhe despedidas em “prime time”, como se de um “até já” se tratasse, em Belém, e cuidam da menorização dos concorrentes, estabelecendo comparações com notoriedade daquele.

Nos últimos tempos, meios de comunicação social e fazedores de sondagens cantam vitória antecipada e fazem eco da premissa de que Marcelo já nem sequer precisa de fazer campanha. O candidato “escolhido” tipo “salta-pocinhas” vai-se mostrando aqui e ali, nas questões da saúde ou nas questões da segurança social. Procurando tirar partido da desgraça alheia, aparece sozinho, “independente” e em ar de passeio, como se não tivesse ao longo do mandato do anterior governo justificado os cortes e calado as consequências nefastas que já se anteviam nessas e noutras áreas.

Mas o descaramento atingiu os limites com a publicação da “Edição Especial do 151.º Aniversário” do jornal Diário de Notícias, publicada a 29 de dezembro de 2015. No que diz respeito ao dia “24 de janeiro”, o anúncio de que os “Portugueses elegem novo Presidente da República” surge acompanhado de uma foto de Marcelo, ao mesmo tempo que se elencam os restantes candidatos, mas com este enumerado em primeiro lugar e a merecer o privilégio de ter o seu nome realçado a “negrito”. Enquanto isso, no final da página, referindo-se às eleições presidenciais americanas, a articulista de serviço apresenta a foto da Democrata Hillary Clinton juntamente com um dos concorrentes Republicanos, embora sem o nomear e pondo-o mais pequeno e em segundo plano.

Mas a desfaçatez não acaba aqui. Na página seguinte, imediatamente após o lançamento do spot publicitário “Sabe para onde estão a olhar os seus consumidores?”, surge-nos um artigo de opinião que destaca a figura do Professor, sorridente e com uma aparência de felicidade paradisíaca, que caminha, como se induz, para Belém, ladeado por uma enorme Bandeira Nacional, enquanto se pode ler na legenda: “O provável futuro presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, já se pôs em funções com interesse real”.

Numa mistura de propaganda fascista e de nacionalismo bacoco e de conotação monárquica, eis que surge, qual “D. Sebastião”, o “Homem” salvador do regime! Pobreza malabarística e manipulação inadmissível que já pensávamos arredia da Praça Pública!

Mais uma vez, a “sociedade de consumo” protagoniza os interesses de um capitalismo desumano do “vale tudo”, servido num embrulho manipulador que mistura negócios, conservadorismo nacionalista, fascista e de índole monárquica, com uma veia sebastiânica, que nestas ocasiões teima em ser incutida na plebe. Esta, recusando ser Povo e Cidadã, deixa-se passar por cordeira e sacrifica-se em nome de “Um”, que é levada a crer ser o “Seu” e, alegre e contente, esmifra-se por chegar primeiro ao beija-mão.

Triste povo este que se deixa assim espezinhar e mal tratar!