Palavras, Palavras…

por Cílio Correia | 2017.01.16 - 20:39

Visitei um idoso vítima duma trombose cerebral que o deixara amputado do hemicorpo direito. Gatafunhava. Estava confinado a um estranho silêncio. Ressentiu-se, estava sozinho na vida. Mantinha um discurso entaramelado, mas intimista. Chamavam-lhe “bruxo”, ele que sempre fora avesso a bruxarias. Ironias.

Reservara, sete palmos no cemitério da terra. A estadia no hospital era mais um abrigo. Fugia da ganância de familiares. Naquele dia, sentia-se reconfortado. O interesse dum velho amigo fora uma prenda inesperada. Devagar, contava as dores. Aborrecia-se, obviamente. Não queria pesar a ninguém, mas as pessoas só lhe dirigiam a palavra de fugida e usando um diminutivo que lhe punha os nervos em franja.

Eram sete da tarde quando lhe colocaram o jantar na mesa da cabeceira. Ficou-se pela terrina de sopa e fruta passada. Detestava iogurtes. Preferia papas ou gelatina fresca. Era dos poucos que ia comer à mesa, os outros não conseguiam sair da cama nem comer sozinhos. Limitavam-se a tossir e a gemer.

Sentia-se mergulhado num atroz infortúnio: doente e entregue a si próprio. Estava preso à vida. “Que se lixem.”, dizia. Incomodava-se com os outros, e até lhe passava pela cabeça esbofeteá-los para ver se reagiam. A morte era inevitável, mas para cada um a sua morte, embora seja o mesmo sol que aquece. Não lhe restavam alternativas. E era por esse absurdo que falava sozinho.

Queria era morrer à beira duma janela, confidenciou-me, num final de tarde quente, céu azul, com discretas nuvens a correr tocadas pelo vento. Palavras que nos deixaram sem palavras…