Pais Porreiros

por Carlos Cunha | 2016.11.26 - 13:21

 

 

Apesar de ainda estarmos no outono, o inverno, pé ante pé, já se vai fazendo anunciar com os seus rigores. No entanto, há um grupo significativo de jovens que não teme a intempérie e aguarda há quase uma semana pelo concerto do seu ídolo, o cantor canadiano Justin Bieber, mundialmente famoso pela vasta legião de fans, que o seguem nas redes sociais mais conhecidas e que devotamente esgotam os seus concertos.

Justin Bieber é um jovem rebelde, que arrebata inúmeras paixões e polémicas, tratando-se de um “produto” altamente rentável para os mídia. Bieber teve alguma dificuldade em conviver com este sucesso mundial, o que o levou a cometer uma série de exageros com a bebida e outro tipo de substâncias. Esta falência psicológica do jovem cantor perante o convívio com o repentino e estrondoso sucesso mundial levou-o a ter acompanhamento especializado no sentido de encontrar algum equilíbrio e de se afastar das companhias e dos comportamentos desviantes.

A loucura dos fans é tanta que estes não se importam de passar uma semana abancados à porta do Meo Arena para assistir ao concerto. É preciso não esquecermos que estamos a falar de adolescentes com pouco mais de 15, 16 anos que ali ficam durante uma semana entregues à sua sorte. Em tudo isto o que me custa a entender é esta permissividade dos pais. Uns porreiros dispostos a patrocinar o bilhete e uma semana de férias em pleno período de aulas para que a relação entre pais e filhos seja um idílio em que os primeiros existem para satisfazer os desejos dos segundos.

Ir a concertos é um passatempo extremamente salutar, assim como salutar é o convívio entre jovens, todavia, o que não é aceitável é esta permissividade dos pais, dispostos a tudo para apoiarem o sonho dos seus meninos que desejam irracionalmente estar junto do seu ídolo. Sim, por que contrariar os seus rebentos dá trabalho, por isso, é muito mais fácil meter-lhes umas notas no bolso para que estes se divirtam, pois se forem contrariados podem ficar com traumas psicológicos irreversíveis.

Argumentar até que os filhos compreendam que é irracional estar, em tempo de aulas, durante uma semana sem cumprirem as suas obrigações e ainda por cima receberem uma semanada sem nada fazer, irá criar nas cabeças daqueles jovens um sentido de facilitismo e de irresponsabilidade. Na verdade, os jovens nestas idades devem merecer ir a um concerto, a um desafio de futebol ou até ter um telemóvel novo. É acima de tudo uma questão de bom senso e de equilíbrio que nem sempre é fácil de encontrar.

Enquanto continuarmos a substituir carências afetivas por bens materiais, atingíveis sem esforço, estaremos a ir pelo caminho mais fácil, que consiste em encontrar uma solução para a felicidade imediata sem perspetivarmos uma construção de valores sólida para o futuro.

 

 

 

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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