Outonos

por Ana Albuquerque | 2016.10.18 - 17:01

 

Um dia, à noite, naquela quinta rodeada por um muro de pedra, um muro muito alto, que ela julgava difícil de escalar, um homem gritou e o seu grito ecoou no escuro do silêncio aterrador.

Era um grito de raiva. Trazia consigo uma ameaça de trovoadas violentas. Seguiu-se um tiro e um gemido. Ela não dormiu. De manhã, disseram-lhe que tinha sonhado e que nada de estranho acontecera. À tarde, ouviu o sino da pequena capela tocar de modo diferente! Ia jurar que a harpa do quarto grande gemeu, tocada por mãos finas de mulher sozinha.

Ela não passava de uma menina, ainda, com olhos grandes, muito abertos pelo espanto que a vida lhe causava.

A quinta ficava longe de tudo, longe do mundo. Tinha três casas, separadas por arvoredos que, nas noites de ventania, pareciam fantasmas a tocar o violino do vento.

Havia um avelal de folhas castanhas e avermelhadas. As avelãs eram bicudas umas, redondas outras, mas todas eram escolhidas, separadas e ensacadas para venda. Adorava aqueles serões à luz da lanterna tremeluzente que projetava as sombras dos corpos na parede do grande salão. Sempre gostou de sombras! O sol escaldante feria-lhe as pupilas!

A quinta era muito grande. Atravessava-a um longo caminho de terra batida, circundado por eucaliptos, de tronco largo, perfumados com o aroma dos rebuçados da tosse, que a avó mastigava continuamente. Por baixo do caminho, havia um túnel que convidava à aventura. Parecia que vivia numa história daquelas que lia sofregamente em cinco ou sete horas e que, ela ainda não sabia, veria uns anos mais tarde na televisão.

Agora, o verde da quinta só existe no olhar longínquo da menina que, pela janela, se perde no tempo.

O cheiro a maçãs do bravo sobre a palha, na casa daquela avó com trança enrolada na cabeça, não se escreve!