Os Velhos Filósofos do Restelo

por António Soares | 2015.02.15 - 11:18

 

 

É com muita estranheza que ouvimos tantas personalidades com direito a tempo de antena desejarem que tudo corra mal à Grécia. E não se percebe.

Se as medidas do Syriza resultassem, talvez a fórmula pudesse ser aplicada aos outros PIGS – acrónimo subtil e carinhosamente popularizado pela imprensa de língua inglesa – e se salvasse toda a vara.

Curiosamente, muitos parecem torcer para que tal solução não seja encontrada. Porque o orgulho e ganho próprios se sobrepõem ao bem-estar colectivo; porque o sucesso do Syriza põe (ainda mais) a nu o acto criminoso de que temos sido alvo, que nos conduziu à actual espiral recessiva; ou porque realmente acreditam que só com austeridade se encontram soluções para crises económicas, por mais que se prove que não é necessariamente assim.

Outra possibilidade é que seja simplesmente pessimismo e excesso de pessimistas. O que também explica muito.

Passos Coelho foi um dos primeiros a descredibilizar o programa do Syriza afirmando que “é um conto de crianças, não existe”. Nada melhor do que um político a descredibilizar outros políticos para nos dar uma imagem clara do que é a política. Antes de o ser já o é. É-o julgado antes de ter oportunidade de o ser provado. E é-o dito por um homólogo. E cada um conhece melhor os meios onde se move.

Camilo Lourenço, por sua vez, diz que “katastrofis vai acontecer”, se Tsipras não mudar o discurso, porque a “Grécia ainda não pode caminhar sozinha”.

Em primeiro lugar é de salutar o humor inteligente de Camilo Lourenço ao tentar dotar de sonoridade helénica o português “catástrofe”, para caracterizar o futuro que prevê (ou deseja?) para o povo Grego.

Teve a sua piada, caro Camilis Lourençopolos.

Etimologicamente a palavra deriva do Grego, efectivamente, mas de “katastrofé”.

Quanto ao “caminhar sozinha”, esteja descansado, Camilis. Em apenas uma semana o Governo de Tsipras subiu o ordenado mínimo de 586€ para 751€. Por cá, o nosso “aluno bem comportado” Portugal, continua a trilhar caminho pela austeridade, que o Camilis tão bem defende.

Concorde agora comigo, se tiver coragem: no que a caminhar diz respeito, os Gregos até podem precisar de comprar uma bengala ou um andarilho, mas nós, não tarda, deixamos de andar por subnutrição.