Os tempos estão (sempre) a mudar

por Armando Ferreira | 2013.11.28 - 18:35

Acorda-se numa manhã de outono, mais precisamente numa manhã de domingo de outono, daquelas em que o Sol está tão morno como uma caneca de leite e, sem qualquer aviso prévio, entra-nos pelos ouvidos com uma notícia sobre reuniões europeias da extrema direita, do crescimento da extrema direita, do que poderá vir a acontecer à Europa com a extrema direita (as eleições europeias aproximam-se, não se esqueçam!).

“Come gather ‘round people                    “Juntem-se malta

Wherever you roam                                     Por onde quer que andem

And admit that the waters                         E admitam que as águas

Around you have grown                            À sua volta subiram

And accept it that soon                             Aceitem que em breve

You’ll be drenched to the bone.              Estarão molhados até aos ossos

If your time to you                                     Se o seu tempo

Is worth savin’                                            Vale a pena ser salvo

Then you better start swimmin’              Então é melhor começar a nadar

Or you’ll sink like a stone                         Ou irá afundar-se como uma pedra

For the times they are a-changin’.          Porque os tempos estão a mudar.”

Bolas, que é domingo! E isto não são notícias para um domingo de manhã, muito menos para uma manhã de domingo de outono. Porque são notícias que nos devem preocupar, que nos devem levar a questionar como e porquê chegámos até aqui.

 

“Come writers and critics                         “Venham escritores e críticos

Who prophesize with your pen                Que profetizam com as vossas canetas

And keep your eyes wide                           E mantenham os vossos olhos abertos

The chance won’t come again                  A sorte não virá novamente

And don’t speak too soon                         E não falem demasiado cedo

For the wheel’s still in spin                      Pois a roda continua a girar

And there’s no tellin’ who                         E não há como dizer

That it’s namin’.                                         Quem será nomeado

For the loser now                                       Pois o derrotado de agora

Will be later to win                                    Mais tarde vencerá

For the times they are a-changin’.          Porque os tempos estão a mudar.”

Procuremos, então, os críticos, os comentadores, os especialistas (sim, porque podemos não ser nem ter muitas coisas, mas em especialistas, na Europa, ninguém nos bate!). Nada! Sobre este tema… nada. Pelos vistos, ninguém se preocupa com o caudal de verborreias contra os imigrantes que circulam por essa Europa fora, contra as pequenas/grandes decisões que vão sendo tomadas para a “defesa/pureza das pátrias europeias”. Cheira-me a “ovo de serpente”!

“Come senators, congressmen                 “Venham senadores, deputados

Please heed the call                                               Por favor, escutem a chamada

Don’t stand in the doorway                      Não fiquem parados no vão da porta

Don’t block up the hall                              Não congestionem as entradas

For he that gets hurt                                 Pois aquele que se magoa

Will be he who has stalled                                   Será aquele que nos travou

There’s a battle outside                            Há uma batalha lá fora

And it is ragin’.                                           E ela está a rugir

It’ll soon shake your windows                 Em breve abanará as vossas janelas

And rattle your walls                                 E fará ruir as vossas paredes

For the times they are a-changin’.”         Porque os tempos estão a mudar.”

Foi mais ou menos assim, num caldinho semelhante de crise generalizada e descontrolada (sempre paga pelos mesmos, ontem como hoje) que, saindo do “ovo da serpente” cresceu o nazismo “patriótico”, “purificador”, defensor dos “valores da verdadeira Europa e dos verdadeiros europeus”.

“Come mothers and fathers                      “Venham mães e pais

Throughout the land                                 De toda a terra

And don’t criticize                                      E não critiquem

What you can’t understand                      O que não conseguem compreender

Your sons and your daughters                 Os vossos filhos e filhas

Are beyond your command                      Estão para além das vossas ordens

Your old road is                                          A vossa velha estrada

Rapidly agin(g)’.                                         Esta a degradar-se rapidamente

Please get out of the new one                  Por favor, saiam da nova

If you can’t lend your hand                                  Se não puderem dar uma ajuda

For the times they are a-changin’.          Porque os tempos estão a mudar.”

Mais uma vez, bolas para esta manhã de domingo de outono. E lá estão eles, sorridentes, em reuniões na Holanda, na Áustria, em França, na Itália, na Alemanha, na Dinamarca, na Inglaterra, na Rússia,… As crises ajudam-nos. A vida corres-lhe bem. E as esquerdas? O que dizem a isto as esquerdas das esquerdas, e as esquerdas (só) e as meias esquerdas, e os centros mais ou menos à esquerda ou à direita, conforme calha ou convém? E os que não querem, comodamente, alinhar nem com uns nem com os outros? Então malta? O que é que têm andado a fazer?

“The line it is drawn                                  “A linha foi traçada

The curse it is cast                                     A maldição foi lançada

The slow one now                                       O que é agora lento

Will later be fast                                        Será rápido mais tarde

As the present now                                     Assim como o presente, agora

Will later be past                                       Será mais tarde o passado

The order is                                                 A ordem está

Rapidly fadin’.                                             A esvair-se rapidamente

And the first one now                                E o primeiro de agora

Will later be last                                        Será, mais tarde, o último

For the times they are a-changin’.          Porque os tempos estão a mudar.”

A notícia já não é notícia. A voracidade das notícias seguintes atirou-a para o limbo do esquecimento. Passou. Mas fiquei alerta. E o que deveria ser um domingo sem preocupações, deixou de o ser. Há qualquer coisa a mudar e não é o tempo. E não é para melhor. Disso, tenho a certeza! E nem as palavras e nem a canção de BOB DYLAN (continuando atual ainda que em contextos diferentes) me farão sentir melhor. Mas, talvez os tempos voltem a mudar. Talvez!

Continua a ser um domingo de manhã de Outono. Até ao almoço, a minha companhia vão ser as canções do BOB. Possivelmente, vou ficar mais bem disposto!