Os tempos enfim idos?

por PN | 2017.01.18 - 16:26

 

(texto escrito em 2014… ou 2015)

 

1. “Os animais que estavam lá fora olhavam dos porcos para os homens, dos homens para os porcos e novamente dos porcos para os homens; mas já não era possível dizer quem era quem…” Georges Orwell, O Triunfo dos Porcos

Sem pudor nem resistência, os porcos, alarves, cevados e róseos, triunfam. Nos seus chiqueiros fétidos, em varas prósperas, erguem seus estrídulos roncos enchendo o ar com o peso adjectivo do seu recém-descoberto poderio. São fortes, os porcos. Ou então, os carneiros são de tal forma frouxos que se submetem passivos, alheios e espoliados ao coro de eunucos mal-cheirosos que se julgam, nédios, um coral de rouxinóis. Razão tinha o burro Benjamim. Mas era burro.

2. O fundo – algo que ocorre quando se recorre – tacteante primeiro, subiu o tom ao perceber com que labruscos acobardados lidava. E deu às sugestões ordens e às ordens exigências esdrúxulas enquanto os pinguins, em parada, de sobrecasaca lustrada pela subserviência, ovacionavam com as barbatanas luzidias e viscosas. “Tu, velho hediondo, que toda a vida descontaste para a segurança social de nome irónico, vais ser saqueado de mais 20% da miséria que recebes e pagaste!”;Tu, jovem professor e mais a tua recém-criada família, vais para o pelotão com milhares de quilómetros de desempregados!”; “Tu, funcionário diligente, uma vida a servir o cidadão-utente, engrossarás o regimento dos mobilizados para a esquina dos pré-famélicos!”… E muitos outros “Tus” se sucederão enquanto os pinguins saracoteiam de gozo o focinho acéfalo, veniando sobre os obesos ventres e as membranas raquíticas.

3. Esta que foi outrora uma terra de searas férteis e celeiros atulhados é hoje a arca rota dos nefandos ratos de Camus. A leira viçosa é hoje o solo sáfaro onde os pinguins e outros malfeitores, a esmo, impunes, clamam sua vil vitória.
Este país de nautas e descobridores de mundos por achar é hoje um canteiro murcho regado com cal por um etíope e uma lagardère de pacotilha e rugas ruças.

4. E quem haveria de dizer que os suínos e as ciconiformes aves marinhas, nos chafurdos, procriariam “porcopingues” gerados na contra-natura hedionda da lubricidade bestial? António Nobre, envergonhado, rasura: “Georges foge do meu país de marinheiros!”. Pessoa, sem Gama ao leme, na nau atópica, três vezes, enfático, se naufraga nas cavernas de um mar sem fundo. E hoje, o Vº Império, que não viu luz senão nos olhos de Bandarra, jaz morto e apodrece nos areais de Quibir, correndo sobre o Tejo manso, numa foz infestada pelos esgotos fecundos do Terreiro do Paço.

5. Além, sobre a ramaria umbrosa da figueira, um povo plácido joga dominó. Deformado das orelhas pendentes e moucas, crê que a gritaria dos espoliados é um fado canalha da Hermínia Silva ou da Maria da Fé acompanhado das graçolas ingénuas de um Costa do Castelo ou Ribeirinho.
Heróis do mar, rendido povo a uma vileza tão brutal…

6. Porém, lá longe, mais um “banqueiro anarquista” abre o saco negro para a esmola dos subtraídos. Nos salões faustosos e rútilos dos ritzes, encafuado num fraque plagiado pelos pinguins, ele executa uma marcha fúnebre e virtuosa num stradivarius lancinante, enquanto no tapete fofo e escarlate, na lata sem fundo, os desfilantes, chapéu na mão e cerviz vergada, pedem licença para depositar o óbolo titilante dos solidários com as desgraças de mais ali-babás.

7. Uma moeda ri de gozo ao apresentar o excelente + relatório dos-com-fundo. De que rirá tal clown? Do bom serviço prestado aos patrões? E esta sombra da sombra de outra sombra – talvez por ex-osmose – se é a trigésima moeda, onde estarão as outras 29 a Judas pagas?