Os profissionais da política

por Carlos Cunha | 2015.07.16 - 10:19

Falando em profissionais, estamos prestes a assistir ao nascimento de uma nova classe: a dos profissionais da política. Trata-se de uma casta rara, que os partidos devem preservar com todo o cuidado e desvelo. A recém classe profissional estaria dividida em vários estratos e os pupilos que à mesma quisessem aceder teriam de começar bem cedo a sua preparação.

Para se tornarem profissionais da política os eventuais candidatos não teriam vida fácil, pois, desde muito jovens teriam de se alistar nas jotas e fazer parte das associações académicas, onde passariam o seu precioso tempo a organizar festas e outros eventos culturais e recreativos, experiência que aliás devia ser altamente valorizada no futuro, aquando de uma avaliação curricular, de quem quisesse ser, por exemplo, candidato a Presidente de uma Autarquia. Nesta matéria, é claro que haveria aqueles que, ao estilo Relvas, tentariam contornar o sistema obtendo o seu canudo de políticos profissionais por meio de um conjunto de equivalências junto de uma qualquer Lusófona.

Já em fase mais adiantada da sua formação teriam de efetuar um estágio numa dessas instituições bancárias que pareciam ter credibilidade à prova de bala, mas que afinal se percebeu que não passavam de entrepostos da vigarice e do logro, fazendo fé no nível de escândalos que fizeram ruir algumas. Aí haveria quem dedicadamente os orientasse na arte de bem ludibriar sem escrúpulos: aldrabando os testes de stress, ou ludibriando velhotes menos esclarecidos e outros mais crentes que, num passe de mágica, veriam o seu dinheiro, ganho numa vida de trabalho e de sacrifício, esfumar-se para parte incerta e sem possibilidade de recuperação.

Estes profissionais da política criariam um sindicato que os defendesse e lutasse pelo direito de trabalharem apenas três dias por semana, passando os restantes dois dias de trabalho em contactos com o eleitorado que podiam ser efetuados via facebook ou outra qualquer rede social em que fossem expeditos, realizando assim um profícuo trabalho político de proximidade, em que transformariam, por força das circunstâncias, os cidadãos das suas comunidades em “amigos virtuais”.

Mas esta reivindicativa classe, além de querer trabalhar pouco e de pretender boa remuneração, quem não gostaria, teria ainda outra nobre missão: a de transformar os partidos em autênticas agências de emprego, colocando os seus servidores mais dedicados em organismos/fundações/institutos etc. e tal ou, em alternativa, mandando-os emigrar para a Suiça, mais precisamente para trabalharem numa Embaixada que, como se sabe, é um local onde em média os horários de trabalho rondam as 14 horas diárias em regime de quase escravatura.

Como se vê a classe dos políticos profissionais, ainda que recém-criada, já dá cartas no combate ao desemprego, para além, do mais, prevê-se que a mesma, usando uma linguagem de economista, tenha elevadas taxas de empregabilidade, no fundo, o sonho de qualquer jovem, uma vez que a maior parte daqueles que hoje termina o seu curso superior trabalha em quase tudo menos naquilo em que se formou.

Valha-nos Saint Thomas More, padroeiro dos Estadistas e Políticos, que isto vai mesmo sem rumo ou será apenas do calor?

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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