Os Novos Donos de Portugal

por Carlos Martins | 2014.02.25 - 16:29

É perfeitamente normal na vida das empresas, estas passarem por fases. A mesma coisa acontece com os países. Quando as empresas, ou os países, são ricos e capazes, efectuam expansões e crescem. E mandam. Quando não é assim, a solução é depender (alianças), desaparecer (fusões), ou ser comprado (aquisições). Serem mandados. Cumpre se o ditado “manda quem pode, obedece quem deve”.

Os participantes em fusões&aquisições obedecem a princípios e razões objectivas: apresentam excesso de liquidez, procuram aceder a outros mercados, pretendem dispersar o risco, pretendem aceder a tecnologia, aproveitam situações de falências, ou até por razões políticas, efectuam estas operações. Para além destas razões, as posições de quem compra pode traduzir-se em situações num domínio absoluto na gestão, num domínio maioritário, ou minoritário. Mas quem compra não o faz geralmente, por acto de caridade, e como é logico, procura na maioria dos casos obter participações superiores a 80% do capital. Manda quem pode, obedece quem deve. As aquisições de activos Portugueses (empresas, imoveis, terrenos, e intangíveis (a alma)), por estrangeiros, decorrem em variadas áreas de negócio. Destacamos dois desses países – Angola e China.

Angola. Soares da Costa foi adquirida maioritariamente por António Mosquito (que detém interesses nos automóveis, construção civil, petróleo e diamantes); a Construtora do Tâmega foi adquirida na totalidade por António Maurício; a Prebuild foi adquirida por “desconhecidos”; no sector a energia: a Galp é participada pela Esperaza (Sonangol + I.Santos); a Holding da EDP, é participada maioritariamente pela Sonangol, BPA e Finicapital; nas telecomunicações: a Zon Optimus é participada por I. Santos; na banca: o BPI é participado por I. Santos; o BCP é participado pela Sonangol; o BIC participado por I. Santos; o BIG por Kopelika; na comunicação social: a Cofina é participada por Newshold; a Impresa é participada pela Newshold; a Controlinveste é participada por A. Mosquito; no desporto: o Sporting é participado pela Holdimo; nos combustíveis: a Galp é participada por I. Santos e Esperaza; a Sopor é participada pela Sonangol; no sector alimentar, as participações repartem-se no sector vitivinícola, (Qtas da Serra, e da Pedra Cavada) por Kopelika; nas conservas com a participação na Cofaco pela Newshold; nos Vinhos Benigno por A. Evaristo; na Central de Frutas do Painho por Tzhizé dos Santos; na Oeleoga com a participação de Monteiro Kapunga; no sector do comércio automóvel a Viauto é detida por Hélder “Júnior”; enquanto a Tobis mudou de mãos para Filmdrehtsich.

China. No sector da energia, a CTG adquire 21,35% da EDP; a State Grid adquire 25% da REN; a CTG participa a 49% na EDP Renováveis (China Three Gorges); nas águas a Veolia é adquirida pela Beijing Enterprises Water Group; na banca instalam se em Portugal o ICBC- Industrial and Commercial Bank of China, e o Bank of China; a Huawei inaugura um centro tecnológico, e a EDC (mármores) passam a ter a participação de capitais chineses; nos seguros a FOSUN adquire o negócio de seguros da CGD. Para além disso, a operação de vistos Gold, como contrapartida de um investimento de meio milhão de euros. Para lá da presença nos casinos, a sua extensão aos sectores agro-alimentar (vinhos, azeite, …), e ao comércio tradicional e de luxo.

Conclusão. É este um fenómeno frequente nas economias dos países? Trás vantagens? É perigoso? Na nova era da “Globalidade”, todos vão competir com todos, por tudo e em todo o lado. Daí poder parecer inevitável. As vantagens podem de facto ocorrer: as novas “adquiridas” podem aceder a novos mercados, usufruir de economias de âmbito ou de escala, gerar e potencializar clusters adjacentes aos sectores. Serem empresas mais bem geridas. Darem melhores resultados. Os perigos podem igualmente ser múltiplos, desde interesses e influência na política e nos políticos (lobbies, máfias), á segurança do estado, até dependências económicas. Contudo, ninguém aliena parte dos seus bens se não precisar. A regra de ouro vai assim, cumprir-se nos próximos anos – “manda quem pode, obedece quem deve”.