Os meninos post’it

por Eme João | 2016.05.31 - 11:13

 

Quando era miúda estudei num colégio, que ficava na rua onde morava, desde a infantil até ao 9º ano. A minha mãe já tinha estudado lá e mais pessoas de família. Na época, tal como agora, qualquer pessoa podia estudar onde quisesse. No público ou privado. Mas se optar pelo privado, só tem que pagar.

Na época, não havia estes famosos contratos de associação. Muitas famílias que optavam por colocar as crianças na escola privada tinham de fazer muitos sacrifícios e definir prioridades. Assim, as prioridades eram: a alimentação, a saúde e a educação. Pelo menos na minha família era assim. Não havia luxos porque depois das prioridades, o pouco que sobrasse era para alguma eventualidade. Há 40 anos atrás era assim e eu aprendi que a educação era, sem dúvida, uma das prioridades de uma família.

Nesse colégio, havia pessoas de todas as etnias, de várias ou nenhuma religião, com pais comunistas, socialistas, sociais-democratas, ou qualquer outra ideologia. Do Benfica e do Sporting. Gordos, magros, amarelos, vermelhos, etc.

Percebemos desde cedo a importância da diversidade e que a liberdade era isso mesmo. Perceber e aceitar a diferença que há entre todos nós, para construir uma sociedade justa com direitos e deveres iguais para todos.

Assim, o princípio da solidariedade é o alicerce de qualquer estado social. Por isso, pagamos impostos. Por exemplo, quando nos descontam no vencimento, onze por cento para a segurança social, esse dinheiro é dividido. Uma parte vai para o pagamento das actuais pensões e reformas, uma parte vai para as prestações sociais, como por exemplo o subsídio de doença ou o de desemprego.

Podemos nunca vir a estar doentes ou nunca ficar desempregados. No entanto, o princípio de solidariedade é isso mesmo, todos temos de pagar os nossos impostos ou taxas, para que o Estado possa proteger os seus cidadãos e cidadãs nestas eventualidades.

O Estado tem assim que garantir o direito à saúde, à educação e protecção social aos que dela necessitam, bem como garantir as pensões e reformas.

O que o Estado não tem nem deve fazer é patrocinar as negociatas dos privados, em detrimento do serviço público.

Mas, naquilo a que resolvi chamar a onda post’ it, (os amarelos) o que mais choca é ver o oportunismo da Igreja em conjunto com a direita, que tanto mal fez neste país, virem agora reivindicar e exigir aquilo que nem sentido faz.

Portanto, assistimos a uma maré baixa amarela, de águas turvas e “antigas” onde a manipulação das crianças é vergonhosa, onde não podemos deixar de nos perguntar, quem lhes pagou as camisolas amarelas, quem patrocinou toda aquela logística? Será que é difícil de perceber que uma turma no privado custa ao Estado 80.000 euros e no público 50.000, e que estando o país no estado a que chegámos, a primeira coisa que há a fazer é cortar com estas “negociatas”?

Uma coisa é certa, a direita neo-liberal não está nem nunca estará preocupada com famílias nem criancinhas post’it. O seu intuito é e será acabar com o estado social, com direitos, com os serviços públicos entre outras coisas.

Quanto às famílias e crianças post’it, lamento que se deixem manipular por uma direita ressabiada e uma Igreja perfumada com naftalina…

 

 

Nasceu em Lisboa em 31/10/1966. Estudou psicologia no Ispa. Trabalha actualmente no ISS.

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