Os códigos deontológicos ainda fazem sentido numa sociedade economicista?!

por Vitor Santos | 2014.12.18 - 18:07

Os códigos deontológicos ainda fazem sentido numa sociedade economicista?!

Pode dizer-se que até finais da segunda guerra mundial a deontologia dos Meios de Comunicação inspirava-se, de alguma forma, na reflexão filosófica, regia-se por códigos de honra e Conselhos de Imprensa. Com maior ou menor convicção aceitavam-se critérios presuntivamente derivados de Deus, da razão humana, de leis sociais e da consciência profissional e boa vontade.

Outrora as leis positivas foram fundamentadas, racionalmente, em princípios éticos. Atualmente, impera o positivismo jurídico baseado em consensos arbitrários sem a maior preocupação que não seja a de evitar – e eventualmente resolver – os conflitos de interesse entre a imprensa informativa, as autoridades públicas e o público destinatário.

Importa pouco que a informação seja objetivamente factual e verídica. Importa mais que a informação seja «interessante» – que venda. A coincidência com a verdade ou a bondade ética da mensagem é casual e acidental.

Na informação publicitária, por exemplo, a experiência tem demonstrado que a longo prazo é mais rentável dizer a verdade do que enganar. Não é por acaso que se insiste na necessidade de ser objetivo, verdadeiro e credível, não pelo valor em si da verdade ou da honestidade profissional, mas antes pelas vantagens de saírem «airosos» do conflito de interesses.

As maiorias dos códigos deontológicos criados pelos próprios grupos profissionais reduzem-se a meras recomendações de boa vontade que podem ser alegremente violados logo que não causem prejuízos económicos ou de prestígio moral ao patrão. A deontologia informativa de outros tempos centrava a sua atenção na vitória sobre a corrupção, na seriedade, o respeito pela verdade objetiva, a veracidade e a boa fama das pessoas. Atualmente esses critérios perderam quase todo o seu prestígio e existem imensas dúvidas sobre a promiscuidade entre imprensa e agentes políticos, sociais, desportivos, etc.

As verdadeiras questões éticas deviam assumir uma relevância decisiva no exercício do jornalismo. O jornalista é, no entanto, um empregado que está sujeito à política do grupo empresarial. À precaridade laboral, na maioria dos casos. Os números ocuparam os lugares das palavras.

Os códigos deontológicos já não são solução com que se pode resolver todos os problemas éticos da prática jornalística e da carreira, mas constituem, ainda, um fundamental de consciência. São um contributo decisivo para que os profissionais sejam capazes de responder à sua função social primordial em democracia: assegurar os direitos dos cidadãos a serem bem informados.

 

 

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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