Os agamelados

por Paulo Neto | 2019.04.07 - 10:30

Agamelado vem de gamela, que era uma espécie de alguidar em madeira ou barro, que servia para lavatear o corpo e dar de comer aos animais domésticos. Em sentido figurado, gamela é o que é falso ou enganoso, balela, falsidade, mentira.

Vive-se o tempo dos agamelados. São às manadas os “maratonistas” a correr para a pia imensa do poder, central e local, dos fundos comunitários, dos subsídios e subsídiozinhos, dos esquemas habilidosos de altas engenharias financeiras, da corrupção, da promoção pessoal e familiar, na cupidez dos 30 dinheiros, enfim, no acariciante “afago do dono”. A qualquer custo. Mesmo que haja um “rastejante” preço a pagar, mesmo que a coluna vertebral se tenha de tornar mais flexível que um vime jovem. Mesmo que de erecto, o homo sapiens retorne às milenares origens.

Lembram-se da imagem daquele cãozinho atento, sentado sobre os quartos traseiros, a olhar embevecido a corneta de um arcaico gramofone? “His master’s voice” era a marca e representava metaforicamente um grande atributo canino, o da fidelidade, espelhado no canito fixando o aparelho de onde julgava sair o som da afagante e encantatória voz do dono.

A célebre e passada “crise” criou profundas mutações nas mentalidades, comportamentos e posturas. Em geral, para pior, ao instaurar o inato e prático instinto da sobrevivência, herdado dos avoengos das cavernas.

Por todo o lado pululam agamelados sermoneiros, ex-cornetins da ética, conformados à aguilhada e canga, a debitarem sem grande discernimento, ponderação, inquestionabilidade ou análise, aquilo que o establishment configura como verdades, passadas pelo crivo ainda mais estreito e burilado de um donatário oportuno e conveniente, traduzido, na prática, em calóricas remessas de vitaminas avidamente consumidas, garante da subsistência e pseudo consistência, mesmo que pagas a tributo de bajulação subserviente.

Quando na comunicação social o negócio tem cara de políticos e a política veste o fato do negócio, salvo abençoadas e raras excepções confirmadoras da regra, a promiscuidade pode nem ser atentatória das boas práticas vigorantes, mas alarga o conceito de “órgão do partido” a muitos meios de propagação comunicacional.

A liberdade de expressão não tem que deitar a cabeça em solo duro. Embora o título de Saramago, “Levantado do chão”, erija, tal como o homem de Cro Magnon, a verticalidade à erecta e adequada postura, a comodidade de uma boa almofada económica decerto propiciará um conforto muito grande. Só arrastará consigo um mero óbice… gera a letargia do sono profundo, que não é o dos inocentes, mais sendo a dos estômagos, enfim, da fome aplacados. Ou a voz do mutismo, ainda assim, na sua inaudível congruência, preferível ao som distorcido do disco riscado.

Yes, Amen não significa o mesmo que Yes men. Ou estarei enganado?