O último acto

por Silvia Vermelho | 2014.01.11 - 21:07

O ano civil inicia-se, na política, com renovadas energias. É uma altura propícia a posições fortes, pois imbuídas do espírito de ano novo, as pessoas são mais receptivas a resoluções afirmadas como irrevogáveis.

Mas o que fazer quando se afirma cansaço?

Em Maio do ano passado, solicitei, no título de um texto “Alguém devia dizer que isto é a sério”. Retomo o pedido, um pedido muito cansado. Alguém devia dizer-lhes que isto é a sério.

Uma amiga partilhou comigo um texto sobre a necessidade de valorizar o trabalho que está a ser feito nos bastidores pela Sociedade Civil Organizada. O termo “bastidores” encaixa que nem uma luva num sistema em que metade da malta está a aplaudir um quarto da malta em cima de um palco que julga ser o centro do Universo.

Sócrates, Seguro, Passos Coelho, Portas e restantes compinchas, fazem-me lembrar os mortos que não sabem que estão mortos, como no filme Sexto Sentido e que continuam a agir como se alguma das suas acções fizesse algum sentido. Ele é congressos, ele é relógios, ele é comentários, ele é tomadas de posição, ele é coisa nenhuma. O vazio, o zero, o redondo zero da eternidade do nada.

A espuma dos dias merece o aplauso da metade que vê mortos sem o discernimento de os saber não vivos, tornando-se assim um grupo de mortos-vivos insaciáveis por espectáculo. Um espectáculo interactivo, onde se vêem a agitar bandeiras e a mandar postas de pescadas sobre “novos rumos”, “novas políticas”, “mais isto e mais aquilo”, em que militar no Partido Socialista é estar do lado certo da barricada, em que militar no PSD é estar do lado realista da barricada, em que militar no CDS é estar no lado do pendura da coisa, em que estar no PCP é estar do lado certo da História passada e estar no Bloco é estar do lado certo da História futura, e não sei sai disto. Depois surgem, como cogumelos, projectos de partidos, que notam algo estranho nos mortos em cima do palco mas que, ao querer fazer parte do palco, significa que por muito que os estranhem ainda não os sabem mortos.

Nos bastidores, não sei se um quarto, se mais, se menos, mas seguramente, algumas/uns de nós, tapam buracos, apagam fogos e tentam com que mortos e mortos-vivos percebam, de uma vez por todas, que vivem dissociados da Humanidade em si. Já não posso com protocolos, convenções, moções, planos e relatórios, com os timbres idênticos de Seguro e de Passos Coelho, com a aberração da verborreia de Sócrates e das/os Socranetes, com a teatralização exagerada de Portas e, em especial, com a dificuldade em fazer perceber os séquitos desta gente que enquanto se mantém na ilusão de que a sua acção naquele campo é útil, para si e para o país… bem, enquanto isso, só atrapalham o trabalho de bastidores. O da sobrevivência. O da preservação da Humanidade em nós.

Não verei, em vida, com certeza, o último acto desta era universal de desnorte e desvario, de dissociação, de ignorância, de ilusão, de alucinação. Mas este impõe-se, sob a ameaça de a única saída ser o bilhete só de ida para Marte.

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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