O “trabalho” do desemprego

por João Fraga | 2013.11.28 - 17:26

“Não pode passar despercebida a tendência para promover o emprego através do cerceamento dos direitos dos trabalhadores”.

Esta citação foi extraída da mensagem da última Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), realizada em Fátima em 14/11/2013.

Toda a gente concorda, o desemprego é “a maior chaga social”.

Sem dúvida, a situação de quem fica desempregado, a pobreza, a fome, a indignidade, é a expressão mais visível, dramática e preocupante do desemprego.

Mas há mais reflexos socialmente perigosos do desemprego que estão a emergir e que não devem ser desvalorizados, “não podem passar despercebidos”.

Um deles é o de que o desemprego se reproduz a si próprio, isto é, desemprego gera desemprego. Desde logo, porque, inibindo o consumo, diminui a necessidade de produção. Depois, porque, como é público, em muitas empresas, há quem (se) aproveite (d)o desemprego como pretexto para, gratuitamente, despedir trabalhadores ou, até, encerrar a própria empresa, em não poucos casos, à margem da lei.

Para além disso, tem também por efeito a degradação das condições de trabalho, porque, para muitos empregadores, o desemprego existente “cá fora” é instrumento para, “lá dentro”, (sobre)intensificarem o trabalho, desregularem os horários de trabalho, atrasarem o pagamento dos salários, descurarem as condições de segurança e saúde, desenvolverem situações de “assédio moral”.

E também porque, justamente por medo (ainda) do desemprego, muitos trabalhadores “aceitam” e “consentem”, sem possibilidade de exercitação dos seus direitos, um emprego seja lá ele qual for, um emprego sem condições de trabalho, mesmo com o atropelo de direitos, indigno.

Do desemprego, as vítimas são também os empregados e não apenas os desempregados.

O que preocupa ainda mais é que, numa situação como a que se vive, em que o emprego é um bem (cada vez mais) escasso, há, de facto, uma certa tendência para germinar e ser alimentada a ideia, socialmente perigosa, de que o sofrimento e a injustiça social só atinge os desempregados, sendo os empregados uns “privilegiados” pelo valor absoluto do seu emprego, por mais degradadas que sejam as condições de trabalho deste.

Um dos instrumentos da criação de emprego e de combate ao desemprego é justamente a qualidade do emprego, na medida em que condição de qualificação das pessoas (e, logo, de “empregabilidade”) e factor de competitividade (e, logo, de potencial criação – ou, pelo menos, da sua manutenção – de emprego).

De qualquer modo, um dos “desafios éticos do trabalho humano” é, justamente, a melhoria das condições (físicas, mentais, sociais, salariais, organizacionais) em que as pessoas o realizam.

É que, na medida em que perverso, é inaceitável que se passe a ter por normal, por banal (a “banalização do mal”), que os trabalhadores, sendo já eles as vítimas do desemprego por lhes ser negado o direito ao trabalho, sejam também vítimas do “trabalhinho” de degradação das condições de trabalho que o desemprego vai produzindo.

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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