O Ti Firmino do Barro Branco

por PN | 2016.03.10 - 10:27

Geofilias (III) *

O Ti Firmino do Barro Branco

 

O que eu gostava do Ti Firmino. Em tempos idos foi mesmo o meu secreto herói…

Ganapito de palmo a meio nutria tal gosto por cavalos – talvez inflamado pelas séries do Zorro e do Bonança – que sonhava ardentemente ter um lazão de fronte aberta, um pigarço mosquetado, um baio de cabos negros ou um bragado pintalagreta.

O meu paciente e dócil equídeo, à falta de melhor, era um velho banco em coiro castanho e gomado que pertencera ao Nash do avô Hilário e que eu montava, destemido, enforquilhado no encosto traseiro, largo de uma garupa de alter-real esparvoado.

O Ti Firmino era o “nosso “ moleiro, que vivia no seu moinho junto ao rio Sátão, no Barro Branco, antes deste se ir amigar, mais abaixo, ao rio Dão. Casado com a videirinha e lêda Ti Clara Moleira, era o pai do Tóino e do Ricardo, que lhe não quiseram seguir o fadário. O Ti Firmino mais o seu rocinante Ruço, todas as auroras subia, calmo e pachorrento, a íngreme Rua da Cadeia para onde meu quarto alcançava.

Trupe-que-trupe, o estrépito da ferradura na calçada era o sinal para me tirar num ápice da cama, lavatear os olhos com um dedal de água e enfiar calções e botins e saltar escada abaixo. Num virote ia apanhá-lo ao pé do Luís Maeira, ou às espaldas da Escola Primária, com sua eterna samarra coçada pelo dorso arqueado e o paivante descaído sempre ao canto da boca mordaz, encimada por um bigode fininho, do tipo prosa com labieta e muita treta. O que nem era o caso.

Ia o Ruço de albarda consertada de taleigas, ancho de ademanes por mor do peso e a tropear curtinho para lograr a canseira. Era longa e pesada a subida do Barro Branco…

Lá seguia eu ao lado da parelha, quatro passadas corridas por cada duas ritmadas do moleiro, sonhador de poucas falas e andar lesto de almocreve… Passávamos a jusante do cemitério, onde o Ti Firmino, pagão mas não incréu se deschapelava e murmurava entredentes curta ladainha, ladeávamos o Cardal e fazíamos um resvés ao campo da Premoreira, talhando por carreirais ermos até Serrazela, Samorim, e num rufo, que o andurrial se ajeitava, descíamos a Barreiros, à Bouça e às Pedrosas…

Entretanto, taleiga ali, taleiga além, o Ruço aligeirava-se da farinha moída e de machito forçudo quase passava, empafiado, a égua rabona de cónego na Quaresma.

argola

Eu aguardava ansioso e cansado e ensonado o instante de trepar à albarda roçada… o Ti Firmino, consabido e arteiro, fazia-me ansiar o momento. Até que de súbito me acenava com a mão da beata, me chamava a seu redor e, num gesto hábil e ligeiro – calibrado por milhares de taleigas atiradas – me pinchava lá para cima, para o paraíso dos cow-boys.

O regresso a Vila de Igreja, pelo Pereiro, Contige, Avelosa e Muxós parecia feito num Pégaso, a voar rasante, apesar do remanso embalador do passo baixo.

Do alto da albarda eu via as pradarias e os ranchos do farwest. Até índios eu chegava a lobrigar. Era o Zorro, em cima do Silver…

Aos poucos, com o encurtar da carreira, toldava-se-me o olhar de mágoa… e à minha porta chegados, o Ruço, mulinho de seminário, estancava, e eu, a pesar, deixava-me escorregar pela esquerda, até aos paralelos do chão.

O Ti Firmino olhava para mim, piscava-me o olho azulado e antes de debandar, sussurrava: — Té manhã, miúdo, porte-se bem!

E assim ficava o acordo selado, que se renovava semana após semana, porfiado, até à altura em que fui admitido como aluno do Senhor Professor Martins Pereira. Acabaram-se as cavalgadas. Mas isso já são outros contos…

*Publicado em http://www.daoedemo.pt/opinioes

 

(Foto do “moleiro” DR; outra foto PN)