«O tempo não pára. O tempo é coisa rara…»

por Amélia Santos | 2015.02.24 - 13:13

 

Apodero-me destes versos da canção que a Mariza dedicou ao filho, para iniciar uma pequena reflexão sobre os filhos e o tempo que os pais (não) lhes dedicam…

Enquanto mãe de uma menina de 11 anos, a frequentar o 6º, debato-me com vários problemas em relação à sua educação. Àquilo que devo permitir e aos limites de algumas condescendências: horas de televisão, conteúdos a ver, jogos de telemóveis ou demais zingarelhos da multimédia contemporânea… Não querendo ser obsessiva, encontro o perigo à espreita em todas as solicitações que lhes roubam a atenção em menos de um minuto. E são tantas!

O desafio que se nos coloca hoje, aos pais que têm vidas profissionais exigentes, é conseguir encontrar o tempo para dedicar aos filhos, sem deixar que nada nos roube a essa tarefa. É tão mais fácil deixá-los à sua mercê tardes inteiras a jogar no computador ou noutros videojogos, sem aborrecerem ninguém, nem darem trabalho. Basta dar-lhes comida. Do resto eles se encarregam… É mais fácil, sim, mas isso vai pagar-se muito caro e mais cedo do que se imagina. Perturbou-me ouvir numa reportagem de rádio, na TSF, há uns tempos, que já existem atualmente centros de tratamento para dependentes de jogos. Ouvir jovens e os seus pais descreverem os efeitos da falta de um computador ou de internet era exatamente o mesmo que ouvir um toxicodependente falar da ressaca de uma qualquer droga. Creio que a maior parte de nós não imagina até onde se estendem os efeitos maléficos de algumas tecnologias…

Os nossos filhos, primeiro para bem deles, mas também para bem de todos os que os rodeiam, necessitam de estar com os pais. E, «estar» significa conversar com eles, tentar saber como correm as coisas pela escola e na relação com os colegas. «Estar» significa partilhar momentos e atividades, aproximar-nos das mais variadas maneiras. Comunicar. Ouvi-los muito. Ouvi-los mesmo muito. E não desistir de lhes contar histórias. As crianças continuam a gostar de ouvir histórias ao longo do seu crescimento, tal como nós adultos. Só temos que ter a capacidade de as ir adaptando à sua idade e à sua habilidade de as ir entendendo. E contar histórias pode ser através de um filme ou documentário que vemos em conjunto. Destas narrativas nascem, tantas vezes, as respostas para as suas dúvidas, nasce a tolerância pela opinião do outro, nasce a capacidade e a necessidade de argumentar…

Ao ouvir as manas Mortágua, a Mariana e a Joana, um dia destes em entrevista, achei muito curioso que elas tivessem referido que a capacidade de argumentação delas foi treinada pelos pais desde pequenas, apenas porque não aceitavam que elas proferissem «sim porque sim ou não porque não». Isto treina-se, obviamente, como se treinam outras capacidades, que tantas vezes consideramos serem apenas privilégio dos génios ou dos que nasceram inspirados para isto ou para aquilo…

Terminando, mais uma vez, com os versos da maravilhosa canção interpretada e tão sentida pela nossa Mariza:

 “Eu sei que a vida tem pressa, que tudo aconteça (…) mas sei que algum sorriso eu perdi. Vou pedir ao tempo que me dê mais tempo para olhar para ti”.

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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