O SR. MANUEL…

por Cílio Correia | 2017.02.26 - 13:43

 

O Sr. Manuel aproximou-se da porta do café que se abriu de forma automática. Manifestava uma “marcha de pequenos passos” apoiado numa bengala, a arrastar as pontas dos pés. Tinha um tremor generalizado. Ameaçava cair a todo o instante. Ajudei-o a sentar-se. Não me reconheceu. Outrora faria uma “festa” ao ver-me, hoje, a memória já não lho permitia.

Senta-se na cadeira junto à porta. Abeira-se o empregado. Pede um café em chávena grande. Pouco depois vem o café. O empregado deita um pacote de açúcar e mexe. Já está habituado à visita do Sr. Manuel. Consegue segurar a chávena com a mão esquerda apoiada pela direita, mas, a custo, lá consegue sorver o café, sem verter.

Ao abrir a carteira deixa cair umas moedas no chão. Levantei-me, apanhei o dinheiro e deixei os 60 cêntimos na mesa. Levantou-se. Passou a mão pelo cabelo para o alisar antes de colocar a boina que tinha tirado, à entrada, em sinal de respeito. Velhos hábitos.

Era um velhinho de oitenta anos. O tempo corre inexorável para a foz. Tudo é efémero. Fiquei a ver e a meditar. Deve ter algures uma gaveta onde guarda as joias da família, as recordações. Talvez no centro de dia ou no Lar. O corpo já não é eficaz. A observação dum retrato do envelhecimento, torna-nos mais humanos, mas também mais tristes. Na rua, as pessoas evitam o encontro, trocam de passeio, baixam os olhos à sua passagem, enfim, fazem de contas que não se passa nada.