O SR. ALBERTINO ERA UM PÂNDEGO…

por Cílio Correia | 2017.01.30 - 19:03

Ao rebuscar nos cadernos de notas, encontrei este naco.

As campanhas eleitorais quebram o ritmo das aldeias. São ocasiões privilegiadas para contactos, trocar duas larachas, libertar as mágoas, ver quem já não se via há algum tempo… mas também ouvir remoques como, “só cá vêm à procura do voto… pois de mim não levam nada”.

O Sr. Albertino gostava de verter algum fel. Era um voto certo, mas dava trabalho. Dito isto, trocados os cumprimentos da praxe, lá vem o coração beirão e um convite para um copo na adega, azeitonas curtidas em casa, umas tiras de presunto de meia cura, em salgadeira própria, uma chouriça crua e outra assada em álcool cortadas às rodelas.

Estes mimos eram obra da patroa, D. Ermelinda, e acompanhadas por casqueiro e uma boroa de milho, no tampo dum pipo de aduelas já carcomidas, alindado por uma toalha branca. Garrafas de vinho americano à descrição. Ao lado um pratinho de biscoitos caseiros, na forma de “esses”, para “secar a boca”. Contavam-se umas anedotas. Discretamente, o Sr. Albertino abriu um garrafão empalhado cheio dum porto especial, apropriado para trancar o estômago com um brinde à saúde dos filhos e netos. O remoque cedeu lugar a uma conversa animada e lá nos despedimos com o recado no alforje, em tom ríspido, “ai de vocês que não venham por altura da festa, aí fico mesmo zangado”…

Não tomei muito a sério a advertência. Já nos conhecíamos bem, minutos depois estava a sorrir.