O sindicalismo na PSP

por José Chaves | 2016.05.03 - 21:18

 

O acontecimento conhecido por ” Secos e Molhados” fez 27 anos.

Há 27 anos, fazia-se história na PSP, com uma luta recheada de perseguições, punições e intolerância para com o movimento sindical que pretendia única e simplesmente ter voz na deliberação do seu futuro que era também o futuro da Sociedade que serviam. Há 27 anos que um grupo de intrépidos polícias enfrentou o poder colocando em risco as suas vidas e acima de tudo as suas carreiras, para que presentemente, todos nós pudéssemos ter voz ativa na Instituição PSP e em tudo o que à função policial diga respeito. Defrontaram um poder autoritário, arrogante, prepotente e intolerante, um poder que pretendia obediência sem questionar. Mas esses destemidos polícias fizeram o 21 de Abril de 1989, garantindo uma viragem histórica, numa Instituição com mais de 100 anos de existência. É pena constatar que tanto naquela altura, como presentemente, existam ainda resquícios de um poder superior que manda e exige submissão, apenas por ser poder.

Após este acontecimento e 25 anos depois do 25 de Abril de 1974, conquistou-se o direito ao Sindicalismo na PSP: Direito à intervenção na resolução das questões deontológicas, bem como na garantia de direitos para os polícias e consequentemente para todos a quem servem – a Sociedade no seu todo.

Mas nem tudo tem corrido bem. Não se deve sentir muito bem aquele grupo de homens e mulheres que durante anos a fio, muitas vezes sacrificando a sua vida pessoal e sobretudo profissional, alguns deles condicionados irremediavelmente à não progressão na carreira e que foram desbravando terreno para que o sindicalismo na Polícia fosse uma realidade. Mas que pensarão eles do presente, quando alguns polícias se vão aproveitando de uma luta de décadas por um ideal?

Debato-me então com diversas possibilidades:

Desde logo a sociedade egoísta em que vivemos, em que cada indivíduo tem uma preocupação exacerbada consigo mesmo, faltando-lhe discernimento para se questionar em relação aos seus próprios atos e suas consequências, mesmo que prejudique outras pessoas tal não é relevante e, talvez por isso, a existência de sindicatos de classe, cujos sindicalistas têm preocupações exclusivas para um certo grupo de profissionais, ficando com uma visão distorcida ou sem um sentido global dos problemas dos polícias. Mas há também os sindicalistas que apenas se servem dos direitos de Dirigente Sindical sem nunca terem concretizado qualquer atividade em prol de quem quer que seja e esses são uma espécie de “vendilhões do templo”.

As questões individuais e egocêntricas não dão sentido ou definem um Sindicato. Este deve ter sempre como desígnio a solidariedade, o altruísmo e sobretudo a defesa dos que se encontram em situações frágeis. No entanto, nos tempos que correm a esmagadora maioria dos sindicatos serve apenas interesses próprios ou de classes específicas, desprestigiando o movimento sindical que se quer altruísta, solidário e ideológico. Assim, este sindicalismo, ao invés de contribuir para um fortalecimento da classe, têm conseguido, mais do que qualquer governo ou administração, que a capacidade reivindicativa dos polícias vá diminuindo, de tal forma que há cada vez mais dificuldades em manter direitos, sendo por isso responsáveis, aqueles a quem, a um ritmo que nos envergonha a todos, vão fundando mais sindicatos. Cada sindicato criado, é uma ofensa e uma indignidade para com o movimento sindical e consequentemente um condicionalismo nos direitos dos polícias que nenhuma tutela que os queira restringir alcança de forma tão eficaz.

É necessário que os profissionais da polícia tenham consciência desta realidade e saibam quem tem ferido com elevada gravidade os seus direitos, e ver que a proliferação de sindicatos, alguns apenas com intuito de gozarem créditos sindicais, é a forma mais eficaz de ir destruindo um poder que os poderia colocar bem melhor em matéria de direitos laborais.

Que dizer então de quem pactua, alinha e promove este proliferar de sindicatos?

Para estes e na minha opinião, existem duas possibilidades: ou o seu egoísmo, egocentrismo, falta de sentido cívico e de solidariedade institucional é de tal forma grave que nada mais importa a não ser os objetivos pessoais ou terão uma notória falha de cultura histórica e cívica, que os impossibilita de perceber o que representa efetivamente o sindicalismo, os sindicatos, as lutas e o respeito que é suposto existir por todos aqueles que permitiram que o sindicalismo fosse uma realidade na PSP, assim como a razão da existência de uma entidade sindical. Poder-se-ia relevar a falta de cultura cívica, embora um polícia desconhecer que a sua missão na proteção dos mais frágeis é também uma forma de sindicar e não entender a finalidade de um sindicato é realmente muito grave. Mas mais grave ainda é a falha na personalidade que leva a que o seu egoísmo tudo supere, não se coibindo de prejudicar toda uma classe e o futuro da mesma, por causa do gozo de uns direitos sindicais. Quem esteve na génese do movimento Sindical, deve sentir-se penoso com os profissionais de agora que, lentamente, vão destruindo o que era um ideal e que garantidamente traria para os polícias, mais e melhores condições de trabalho e desempenho da sua missão.

Atualmente o maior inimigo da classe não é um qualquer Governo, não é a Administração, mas sim todos aqueles que, apenas se importando consigo mesmo, pactuam, promovem e incentivam à divisão, criando e fomentando cada vez mais sindicatos.

Por isso a ASPP/PSP tem encetado esforços para que se altere a lei sindical, para que se consigam resolver estes assuntos, sem colocar em causa o direito constitucional à liberdade de associação, mas não temos tido, quer da parte da administração, quer da parte da tutela, bem como os grupos parlamentares no seu todo, uma vontade efetiva para que isso aconteça, levando-nos a concluir que esta divisão é do interesse da administração, é do interesse do poder político, mas jamais será do interesse dos polícias ou de qualquer classe de trabalhadores, pelo que só nos resta apelar ao sentido cívico, ético e profissional dos que precisam de garantir mais e melhores direitos, para não pactuarem com esta divisão que, de mansinho, nos vão impondo…

A dignidade não se vende por uns dias de folga…

 

 

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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