O silêncio é uma palavra sagrada

por Ana Albuquerque | 2015.09.20 - 23:49

 

Voltei, hoje, à Igreja de Nossa Senhora da Graça. Revi-me, num retrato a preto e branco, guardado num álbum, vestida de branco, com grinalda na cabeça e um ramo de flores nas mãos, na pose para a fotografia, frente ao altar. Tinha uns dez ou onze anos. Era o dia da nossa Profissão de Fé. As lições de catequese estavam bem aprendidas. Os ensaios dos cânticos tinham sido apurados e demorados: “Compromissos tomei no batismo, mas foi outrem por mim a falar, hoje quero porém livremente os meus votos aqui renovar!” E a repetição, em coro, hoje quero, hoje quero…

Depois de uma cerimónia breve, nesta igreja, que guarda tantas memórias e confissões, algumas dolorosas, de joelhos, prestando contas, não a um Deus bondoso, em quem sempre acreditei, mas a alguns dos seus discípulos, menos hábeis na arte de encorajar a fé, passámos para a inauguração da Casa Paroquial, abandonada e em risco de ruína depois da morte do seu último habitante, o Sr. Padre Albano. Parabéns pelo esforço e o carinho de tantas mãos generosas que contribuíram para a concretização deste projeto.

As obras de restauro e de requalificação, embora incompletas, tornaram este espaço menos sombrio, mais acolhedor, mais funcional. Contudo, perdoem-me os arquitetos, eu andei à procura do salão grande, da mesa no meio, também ela grande. No cimo das escadas, não encontrei a sala e a porta que dava para o escritório, onde estantes altas guardavam livros e uma secretária com pautas, muitas pautas. E uma das figuras tutelares da minha juventude, o homem alto e esguio, quase etéreo, não me deu aquele aperto de mão tão leve que fugia antes de o ser. A última vez que o vi, o aperto foi mais forte e os olhos de ambos marejaram de saudade do tempo em que eu fazia as leituras, dava catequese, cantava no coro… E a menina Aninhas não estava lá a abrir-nos a porta.

Gostei de rever este espaço, agora novo para ser habitado de novo, para ser o ponto de acolhimento, nas palavras do Sr. D. Ilídio, porém somos habitados de memórias que nos traem o olhar e embaciam o presente de festa!

Olhei para o alto e ouvi o meu professor de música a entoar o hino do Sátão, o hino do colégio, o hino da despedida e apeteceu-me pedir-lhe que descesse e viesse dizer-nos: “Ó jovens, o silêncio é uma palavra sagrada”.

Hoje, descobri o que isso significa na sua plenitude. O silêncio é a última palavra!