O SENHOR DOS MILAGRES, NO CARREGAL

por Alberto Correia | 2016.08.05 - 12:28

 

Eram as alminhas do Purgatório a arder por entre labaredas, como estavam representadas no nicho do Senhor dos Milagres.

Aquilino Ribeiro, in Cinco Réis de Gente.

 

Quem desce do Carregal, essa pequena terra da província da Beira que o nome de Aquilino Ribeiro ponteou no mapa como “terra de castanheiros” e que teve o sortilégio de ser o seu berço, quem desce do lugar da Portela e segue, a partir das últimas casas, a estrada que corre para a Ribeira do Távora onde as Terras do Demo se afogam, passa quase logo às espaldas de um pequeno nicho de devoção de que mal aperceberá a estranha arquitectura de pedra do que julgará ser velho abrigo de caminho. E talvez tivesse sido, há muito tempo, ali na cruz do antigo caminho de onde se derivava para a aldeiazita da Forca que um aceitável pudor fez depois chamar de Santo Estêvão.

Nos finais do século XIX, quando no adro fronteiro já se elevava uma Capela dedicada a um Cristo Crucificado identificado como Senhor dos Milagres, um piedoso devoto faz pintar, a um vizinho artista do povo com alguma nomeada, uma Cruz, na justa medida de um homem, que é acoplada à parede fundeira no interior do abrigo. Um Cristo de suaves tintagens que depois o tempo deliu estende os braços nos braços da cruz que o pintor marcou com uma martelo e uma torquês da iconografia clássica da Paixão.

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Aos pés de Cristo o pintor, respondendo decerto à encomenda do devoto, pinta dois coloridos registos, idênticos no tamanho e no formulário, ainda que a um o tempo o tenha desgastado, registos popularmente chamados de Alminhas, onde, no clássico mar de fogo os corpos nus de alguns pobres pecadores aguardam que um braço se baixe, do Crucificado. A habitual legenda “Ó vós q(ue) ides passando, lembrai-vos de nós com um P(adre) N(osso) e com a vossa bendita esmola. No ano de 1884” constitui-se como apelo a quem passa que ali suspende a voz para uma oração e se é homem ou rapaz, leva cada um a descobrir-se da boina ou do chapéu.

O pintor, devoto também, não deixou o nome, mas o desenho de algum rigor, a pincelada ligeira, as cores de sangue e anil de seu habitual uso, permitem com rigor, atribuir esta obra a Carlos Augusto Massa (1842-1926), nascido em Sernancelhe, proprietário, como diz nos registos do cível, tesoureiro que depois foi, encartado, da Câmara de Sernancelhe por mais de trinta anos, credenciado pintor de ex-votos que por ali, nos santuários, ainda cobrem uma larga geografia e que, como lhe era caro, gostava de deixar registo da era, não do nome que apenas conhecemos de um quadro de milagre. E ali inscreveu a era: 1884.

Aquilino vinha aqui, ao Senhor dos Milagres, em menino, com os companheiros, a Maria Lóia, o Manuel, irmão da Loíta, o Chiquinho e tantos mais. Conta-nos isso no seu romance. Vinha sempre, de memória, quando a mãe o chamava para rezar com ela, sobre a noite, o pai ausente sabe Deus por que caminhos, nomeando as almas dos ausentes para quem se pedia rápida subida para a glória e então o rapazinho, meio assustado, mal entendendo que as chamas do quadro não devorassem aqueles corpos nus da pintura, lá ia balbuciando os Padre Nossos, acompanhando a magoada prece de sua mãe.

Agora, que este nicho de devoção já pertence ao povo, pode ser que alguém tenha pena, como Aquilino, das Alminhas, e do apagado Senhor dos Milagres e mande restaurar as tintas delidas e mande colocar porta segura no arco da porta voltada ao sol. Aquilino, se fosse vivo, talvez pedisse à sua gente que fizesse, ela agora, este “milagre”.