O SENHOR DOS AFLITOS, DAS ARNAS

por Alberto Correia | 2016.08.13 - 14:08

 

 

O SENHOR DOS AFLITOS, DAS ARNAS

                           Homenagem a Carlos Augusto Massa (1842-1926), Pintor de “milagres”

José Manuel Sobral (1823-1913) era, nas Arnas, um lavrador abastado e durante muitos anos foi eleito como um “dos 40 maiores contribuintes” do Concelho de Sernancelhe, integrando esse oligárquico Conselho que era obrigatoriamente convocado para aprovação do orçamento anual, avalizar empréstimos, etc. Casou nas Arnas com D. Maria Brites (1828-1918), natural da Cunha e ali criaram cinco filhos, alguns dos quais vêm a desempenhar também funções autárquicas.

Dia houve, não sabemos da data certa, que a doença bateu à porta do casal, febre ou malina, não sabemos. O médico foi chamado, decerto, esse empenhado Dr. José Soeiro da Silva, médico municipal por quase trinta anos, assíduo na resposta a todos os apelos, que isso ficou escrito, mas não puderam valer os seus cuidados e então, o abastado proprietário ergue as mãos para o céu e vendo “sua mulher já sem esperança de vida, implorou auxílio de N(oss)a S(enhor)a dos Aflitos e logo conheceu melhoras”.

José Manuel Sobral agradece ao céu e manda edificar esse piedoso monumento na margem do caminho que subia até à Igreja para abrigo do singular registo pictórico que manda executar a Carlos Augusto Massa, na altura tesoureiro da Câmara que ele servia, seu amigo, como o médico e que na altura era já um encartado pintor de ex-votos.

Não sabemos que ditames terá exposto ao pintor que tão habituado estava ao clássico desenho do quadrinho de “milagres”, os ex-votos da nossa mais moderna designação. Como resultado uma alegre tábua pintada com um cenário de Calvário, Cristo na hora de dizer a sua Mãe que ali lhe ficava um filho, João, metáfora de todos os homens, a partir daí. E é a esta Mulher, Maria, que José Manuel Sobral invoca no quadrinho que manda pintar “dentro do quadro”, anúncio obrigatório da graça que acabara de receber e que, deste modo, proclamada ficava face a essa numerosa assembleia de irmãos que ao longo de mais de um século já passaram à beira do caminho.

Talvez devoção do pintor, quem sabe, aos pés de Cristo pinta um sereno quadro de Purgatório de onde se levantam braços em prece e onde se consolam, umas às outras, parece, as almas que esperam a demorada redenção, cujos corpos recobre com um véu, pudicamente. E onde esperam o Padre-Nosso de quem por ali passa.

O povo chama Senhor dos Aflitos ao pequeno monumento onde a Vigem apenas é convocada, na legenda do quadrinho pintado, como Nossa Senhora dos Aflitos. Quem passa julga que pertence ao povo este altarzinho. E talvez já pertença. Mas são ainda os distantes herdeiros de José Manuel Sobral quem vela pela tábua pintada que o tempo vai desgastando. E alguém, em seu nome, ou tão só por devoção, ali vai colocando um vaso com flores, esta singeleza de memórias que, por piedade, se depõe sobre um chão vazio e santo.

 

SERNANCELHE. Arnas. Painel votivo (Foto José Alfredo)