O retrocesso do SNS ao tempo da beneficência / caridade da Misericórdia

por José Ferreira | 2015.06.24 - 10:29

 

Declaração de interesse: sou contra as instituições de solidariedade e voluntariado pelo facto de a grande maioria ser geradora de corrupção, não cumprirem com o conceito inicialmente vertido na palavra “beneficência”, o de filantropia, mas sobretudo não proporcionarem emprego real.

Voltando ao tema a que me propus refletir:

Sou do tempo em que a Saúde era pobre, o que para a época era normal, já que todo e qualquer ato que nasce, cresce, e assim também o SNS, tinha que passar por este estádio de pobreza enquanto criança. Houve tempos, na sua fase de jovem, onde enriqueceu. Contrariando a normal evolução, na idade adulta, isto é, hoje, não a encontramos na sua maior pujança. Com o que reparo, aos tratos que o atual poder lhe está a impor, nem me permito pensar o que lhe vai acontecer quando chegar à idade de velhice.

Quando digo que a Saúde não era para pobres afirmo-o no sentido de que este bem não lhe era, e atualmente voltou a não ser, oferecido na sua plenitude, nem em recursos materiais, nem, sobretudo, em recursos humanos.

A palavra miséria em nada me conforta, não só ao escrevê-la, mas principalmente quando quotidianamente me confronto com a sua existência.

Muito me incomoda trabalhar em condições miseráveis, não por causa da miséria que a natureza perspetiva, mas porque os donos das instituições que regulam povos a utilizam como slogan, um modo de viverem e não deixarem viver, para ganharem fortunas e controlar o valor dos bens, neste caso específico o bem Saúde.

Pensado em miséria, a palavra miserável sobressai levando-me a pensar em pessoas frágeis, dependentes, não reativas, que após permanente contato com esta realidade deixam-se ficar numa letargia tal que o modo sobreviver prevalece a modo viver!

O atrás descrito serviu para dizer que passados estes anos, cerca de 40 anos, esta miséria está cada vez mais impregnada, com a agravante de que atualmente a palavra miséria engradeceu ainda mais na sua “miséria”. Passou a ser um produto intencionalmente manipulado pela atual sociedade liberal em que vivemos, que utiliza esta artimanha para se impor perante os seus cidadãos. Em termos gerais, isto acontece por culpa de o poder político-social se ter deixado subjugar ao poder económico-financeiro.

Onde estão os valores dos “maios de 68” ou os mais globais e abrangentes do não menos importante “abril de 1974”? Permito-me responder, os valores estão nos poucos “Eu’s” que por aqui vagueiam, digo vagueiam e vagabundeiam mesmo que de forma ténue.

O endividamento económico, mas sobretudo o preço a que deixamos cobrar a nossa “divida emocional”, não é compatível com a reatividade que nos é inata. O nosso património genético está a ser amarrotado, amordaçado, pelos valores adversos deste meio ambiente inóspito criado para que continuemos somente a estar em vez de ser.

Estou no tempo em que a Saúde só é para os pobres, com a indecência de que a atual sociedade nem sequer é pobre. Passo a justificar:

 

Quem mais utiliza o SNS? Os pobres que erradamente julgam que não pagam. Desta forma o poder instituído fá-los acreditar que o Estado Social funciona. Errado! Caso fosse verdade o franchising das instituições, intituladas de solidariedade, não crescia que nem cogumelos.

Quem menos utiliza o SNS? Os ricos que podem pagar ou têm subsistemas ou seguros de saúde para o fazer. Este dinheiro vai para os grandes grupos que atualmente controlam a Saúde. Grupos esses que se vangloriam de cobrar mais barato os seus serviços, e nós erradamente acreditamos.

Os 3 ou 7 euros nos hospitais Cuf’s, nos Trofas’s, nos Povoas’s, e at all, cobram na realidade 30 ou 70 euros. O que eles fazem com esses 100% de lucro? Sei que aos prestadores dos serviços não pagam o que deviam, e sobretudo não premeiam os cuidados de saúde.

Em jeito de conclusão, o SNS corre um enorme risco de morrer, pois a falácia que este Governo nos anda a vender, e que muitos de nós compramos, é perversa. O dinheiro que nos é muito caro está a passar para as mãos dos privados.