O relatório da OCDE: pessimista ou realista?

por Romira Jamba | 2017.02.08 - 12:18

 

 

A sigla OCDE significa Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico. É uma organização internacional, composta por 34 países e com sede em Paris. Tem por objetivo promover políticas que visem desenvolver o emprego; aumentar o nível de vida; manter a estabilidade financeira; ajudar os outros países a desenvolverem as suas economias; contribuir para o crescimento do comércio mundial. O seu secretário geral é Angel Gurría.

No seu relatório sobre Portugal, publicado esta semana, realça:

“Tanto a desigualdade como a pobreza têm estado a aumentar desde a crise”, sendo as crianças e os jovens os grupos mais afetados, com um aumento de três pontos percentuais, ao passo que a pobreza entre os pensionistas caiu quase seis pontos percentuais desde 2009.

Prevê “um crescimento anual moderado”, de 1,2% em 2017, mas chama a atenção para o aumento das vulnerabilidades do país.

Considera que “as reformas de pensões que tiveram lugar colocaram o peso do ajustamento nos jovens e nos futuros reformados”, ao mesmo tempo que os detentores de direitos adquiridos, “particularmente os pensionistas do setor público, beneficiam de benefícios mais generosos do que os futuros pensionistas”.

Refere que o consumo privado cujo papel foi importante recentemente, “deverá perder peso porque a criação de emprego é demasiado fraca para as despesas dos consumidores continuarem a expandir-se ao nível atual”.

Assinala que o investimento deverá “continuar fraco” e as exportações “vão crescer menos” do que nos anos anteriores, em parte devido à queda da procura da China e de Angola, mas deverá “continuar a ser a força por trás do crescimento neste ano e no próximo”.

Antecipa que a queda do desemprego seja “muito mais lenta do que nos últimos dois anos” e que “é provável que o desemprego continue nos dois dígitos, entre os mais altos da União Europeia”.

Reconhece que o desemprego tem estado a baixar, mas continua em “níveis desconfortavelmente elevados”, nos 10,5%, uma proporção que é de 26,1% entre os jovens.

Considera que as reformas estruturais já feitas permitiram um “reequilíbrio da economia para as exportações”, sublinhando que Portugal exporta agora mais de 40% do Produto Interno Bruto (PIB), quando em 2005 as exportações representavam apenas 27%.

Sublinha que a fraca procura interna numa altura de crise económica contribuiu para a melhoria da balança comercial, mas alerta que vão ser precisas “melhorias estruturais adicionais” para consolidar estes progressos iniciais e garantir que se mantêm quando as importações recuperarem. “O investimento tem estado significativamente mais fraco do que nas outras economias do euro, particularmente desde 2010” e, “depois do forte declínio após a crise, o investimento está agora mais de 30% abaixo do nível de 2005”, destaca o documento.

Aponta que, em Portugal, o lento crescimento coloca dificuldades a nível orçamental. As fragilidades dos bancos têm de ser resolvidas o quanto antes e é preciso recuperar o investimento e apostar nas qualificações.

Enfatiza que “é preciso um investimento mais forte para reconstruir o stock de capital da economia a apoiar um maior equilíbrio estrutural da economia”, orientando-a para o setor transacionável e recomenda ainda “aumentar as qualificações” dos trabalhadores, de forma a aumentar o potencial de crescimento da economia. Tanto o investimento como as qualificações dos trabalhadores vão aumentar a produtividade e isto é “a base para salários mais altos e, assim, maior bem-estar no longo prazo”.

Este cenário, não sendo desesperante, aponta as vulnerabilidades da economia portuguesa e chama a atenção para algumas possíveis soluções. A questão é esta: com todas as fragilidades governativas, com um endividamento galopante, sem renegociação da dívida pública, até onde será possível ir?

Mário Centeno e a sua equipa, agora aumentada de secretários de Estado, tem em mãos uma tarefa muito espinhosa. Vamos ser otimistas e não fazer coro com os arautos da desgraça, que o são, em geral, apenas por meros motivos de oposição partidária.