O RABECA QUE NÃO TOCAVA A DITA…

por Cílio Correia | 2017.03.01 - 18:32

 

O Armando Rabeca era um amigo de infância. A D. Gracinda, moída pela vida, achava ter em casa um valdevinos que só entrava nos eixos pela vergasta. Não havia dia que não percorresse as ruas da aldeia a perguntar com quem se cruzava, “viu o meu Armando?!”… Para logo acrescentar em tom de recado: – “Ai se o apanho, dou-lhe umas vergastadas que vai saber como elas cantam. Pode lá ser andam os irmãos a mourejar e ele armado em finório. Eu canto-lhas. Se o apanho … Tira-me do sério.”

Desabafava a plenos pulmões para que ele ouvisse o pregão. Jogávamos a bola no adro, do lado das escadas da torre onde havia sombra e se formava uma erva macia. O Armando aninhava-se junto ao muro, a espreitar, e, enquanto ela subia a rua desde a esquina da farmácia do Tecinho, ele corria para a Capela de S. Pedro e dava a volta pela rua do lado contrário até casa que ficava nos Outeirais junto à linha do comboio.

A D. Gracinda, precavida, dava meia volta. No dia seguinte, retomava a saga com o xaile negro a cobrir as costas com duas pontas presas na cinta do avental, que lhe cobria as saias pretas, largas e compridas para não lhe tolherem a passada, com umas socas de madeira cobertas a borracha nas bordas dos rastos e aliviar o impacto dos seixos redondos da calçada à “antiga portuguesa”.

Vinha desde os Outeirais, passava pela Fareleira em direção ao jardim e subia até ao adro da Igreja, para voltar pela rua em frente à capela até ao fundo do povo. Na mão direita sacudia uma vara de vime. Nunca vi a D. Gracinda bater no filho, mas lá que a ameaça funcionava, disso tenho a certeza.

O Armando tinha um jeito natural para o futebol, finta curta, corrida e remate certeiro. Pena que não houvesse escolas de futebol porque tinha ido longe. Fez a primária comigo, a primeira comunhão e a profissão de fé. Era um parceiro das brincadeiras. Uma boa pessoa que se via pelo olhar.

Entretanto, rumou a Lisboa. Foi mecânico, eletricista de automóveis vinha à terra com regularidade, já casado e adulto, visitar os amigos pelo Natal e Páscoa e quando lhe batiam as saudades da mãe, uma boa senhora.

A D. Gracinda enviuvou cedo. Era uma mulher de armas. Criou sozinha, os quatro filhos. Mal acabavam a primária iam trabalhar na Fábrica da Naia, de telhas e tijolos de barro que se extraía no Tojal do Moinho e Barreiro de Besteiros, e com instalações fabris e carpintaria onde se serravam e aparavam as madeiras, vindas do corte de pinhais e limpeza de matas.