O que seremos quando deixarmos de ser o que somos?

por António Soares | 2014.03.04 - 21:12

 

Segundo o Diário de Notícias, no seu Editorial de hoje, 04 de Março de 2014, dentro de meio século seremos apenas sete milhões de habitantes, contra os “dez milhões e picos de hoje”.

Não sejamos piegas, que Passos Coelho não gosta e até há muito de positivo nesta notícia.

Desde logo menos trânsito. Com menos três milhões de habitantes, e maior parte dos sete que por cá andarão em pantufas e sem sair de casa pela idade avançada, passar o Porto ou chegar ao Estádio da Luz em dia de jogo do Glorioso, será como um passeio de Domingo numa vila do interior nos dias de hoje.

As zonas de moderação de velocidade por “aproximação de escola” serão uma raridade, o que também facilitará a fluidez do trânsito dentro das cidades.

Mesmo ao nível estético os automobilistas sairão a ganhar. Os autocolantes “bebé a bordo”, já ressequidos pelo sol, tenderão a desaparecer, assim como a incómoda cadeirinha do bebé, que ora nos dá trabalho a desligar o airbag frontal, ora nos desgasta o banco traseiro.

Não teremos que levar com a Popota. Com uma pirâmide demográfica completamente invertida, é de prever que a aposta publicitária deixe de passar pela Popota a dançar ritmos Africanos a dois meses do Natal e naqueles anúncios dobrados de forma manhosa, onde o movimento dos lábios não coincide com o som das falas, do Nenuco que faz xixi aos Playmobil.

Daqui a cinquenta anos estaremos todos velhos de mais para aturar crianças. Falo por mim, que terei quase oitenta (mas aparentarei uns belos 65).

Claro que sem a renovação de gerações será insustentável um Serviço Nacional de Saúde (SNS) para prestação de cuidados aos idosos, as pensões ou reformas serão uma utopia, e se não tivermos um “pé de meia” é bem provável que até para farmácia e alimentação nos faltem recursos. Acontece no presente, e acontecerá então. Será esse o destino da geração que, actualmente, é “população activa”, mas que pouco se activa.

Estaremos isolados, marginalizados, esquecidos. Para ser mais exacto, estaremos ainda mais isolados, mais marginalizados e mais esquecidos que os anciãos de agora, pela primazia de valores já actualmente cultivados como produtividade, rentabilidade, consumo. Valores que desvalorizam os mais velhos por não poderem competir por eles.

Mas o que interessa tudo isso?

Agora estamos acomodados de mais para sermos uma “população activa” contra as políticas de enfraquecimento social, de nos revoltarmos, de darmos um murro na mesa ou em qualquer parte do corpo de alguns que nos desgovernam (que aparentemente dão patadas). E nessa altura, daqui a cinquenta anos, seremos impotentes ou esquecidos demais para nos apercebermos da realidade ou lembrarmos de como permitimos que tivesse acontecido.

Estaremos a pensar onde iremos quando deixarmos de conseguir ir onde agora vamos? O que faremos quando deixarmos de fazer o que agora fazemos? E quando deixarmos de valer o que agora valemos? O que seremos quando deixarmos de ser o que somos?

Ou estaremos a ser tão iguais aos que condenamos e a pensar tão obsessivamente o presente que nos esquecemos do futuro? Do nosso futuro!

É certo que com esta crise (em muito social) nos tentam abafar, cercear o discernimento e a vontade de pensar n(o) futuro. Mas se não os podemos vencer, que não seja por falta de luta.