O que é que a Baiana tem? [O que é que a Nazaré / Viseu / Mangualde / Sernancelhe / Óbidos/etc. tem?]

por Rui Macário | 2013.12.01 - 18:52

Nota Prévia: entendo muito pouco de ondas e de surf pelo que a existir alguma imprecisão nos termos associados a qualquer uma destas realidades, peço antecipadamente que seja desculpada pelo eventual leitor.

 

A 1 de Novembro de 2011, um norte-americano “desconhecido” (para a generalidade dos portuguese, entenda-se) tornou-se figura maior da “cena radical” ao bater um recorde do Guiness para a maior onda surfada – http://www.guinnessworldrecords.com/world-records/1000/largest-wave-surfed-(unlimited). O Guiness World Records é uma marca, sem mais; e o que a essa marca estiver associado torna-se destaque mundial, mais coisa menos coisa. A Nazaré que não era uma marca e continuou sem o ser, passou a despertar a curiosidade dos entusiastas da adrenalina marítima. Não será igualmente de estranhar que a questão da maior onda surfada seja anualmente objecto de prémio pecuniário atribuído por uma das grandes marcas comerciais (e já é a segunda marca na história) de surf, digamos assim – http://xxl14.billabong.com/xxl_wire/?page_id=5. Tudo isto para dizer que a “nossa” Nazaré, dos banhos menos que tépidos e ondas indomadas (que sustos se apanham naquela praia, até para o mais incauto e pacífico banhista), a “nossa” Nazaré das sete saias e do Santuário sito ao Sítio, a “nossa” Nazaré do Dom Fuas Roupinho e do Funicular impressionante, é agora a Nazaré dos putativos recordistas do Mundo quanto a ondas gigantes e a “casa” de Garrett McNamara (que um ano depois do dito recorde, se casou nas areias da Nazaré e aí tem permanecido/regressado e do município sido o melhor e talvez único embaixador). A Nazaré ainda tem sete saias (que talvez se não percam de vez), continua a ter uma época balnear estival forte, continua a ter um Santuário Mariano relevante, continua a ser associada à Lenda que é sua e de mais ninguém e agora, a partir de agora, tem uma potencialmente forte época “radical” (de outono/inverno) à custa as ondas e dos surfistas… A Nazaré tem muito para onde olhar e no fundo nada de novo (sem ironias ou sarcasmos). A preocupação das gentes da Nazaré era a de valorizar o que havia – igual a tantos outros locais pela costa portuguesa fora – e lamentar o que se tinha perdido (a actividade piscatória principalmente) sem algum dia se lembrar que no mar havia ondas que funestas seriam benéficas apesar de tudo. À custa da Nazaré se exploram agora outros locais do litoral português, onde se possa talvez ultrapassar a “loucura” das ondas nazarenas. Resultará daqui uma de duas situações: ou a Nazaré faz por si e cria estruturas que permanentemente “obriguem” ao retorno dos veraneantes e dos surfistas, ano após ano, ao longo de todo o ano; ou perderá a onda – perdoem-me o trocadilho – se alguém descobrir algures outras vagas de maior alcance (lembram-se os beirões do volfrâmio?).

A Nazaré não se fez marca e mal faz marketing, o que a Nazaré teve foi sorte (tanto quanto sei dos motivos que pela primeira vez levaram o Garrett McNamara até lá). Agora tenha a Nazaré trabalho sólido e sustentado e terá um futuro, quem sabe se mesmo algum nativo recordista mundial daqui a umas dezenas de anos… se para tal trabalhar a Nazaré e o(a) nazareno(a). No fundo descobriu-se algo que pelos dias de Hoje se procura incansávelmente: o elemento diferenciador dos espaços. A curiosa ironia que os políticos e responsáveis não têm visto, parece, é que a diferenciação ou é natural e sustentada ou será eventualmente efémera.

Óbidos, por outro lado, escolheu ser outra coisa qualquer que não o que era. É justo, todos podemos transformar-nos. Essa aposta valeu-lhe fama (e penso que igualmente alguma fortuna); foi outro caminho para um mesmo fim mas tendo por contrapartida parte da sua essência (e elementos patrimoniais culturais associados). Hoje há mais festivais/festas/certames de chocolate no país, o que Óbidos para si criou foi a necessidade de permanentemente ser palco de algo (Óbidos Vila Natal, por exemplo) e daí temos uma vila que é apenas um teatro gigante com uma necessidade constante de novas ideias e “produtos”; Óbidos é agora uma marca mas não será lar de muitos – desculpem-me a franqueza da opinião. Uma salvaguarda: se essa for a estratégia e se o preço foi aceite antecipadamente; a cada cabe a decisão…

Em resumo: As marcas têm produtos e vendem-se. As cidades, vilas e aldeias têm essências e vivem-se/vivenciam-se. Querer ser reconhecido pelo que é inato ou endógeno é um caminho sustentável e relacionalmente simples embora nem sempre seja sinónimo de desenvolvimento económico. Os municípios do Distrito de Viseu, ainda vão a tempo de decidir qual dos percursos querem trilhar, em particular porque nenhum deles fez algo de definitivo para a valorização territorial num sentido lato. Gastou-se dinheiro, criaram-se infra-estruturas mas falta um projecto de todos, de alguns apenas (como a Fundação Aquilino Ribeiro, de Moimenta, Sernancelhe e Moimenta, que ainda não avança a trote) ou de cada um individualmente. Só é pena que o Cabicanca (e os vários potenciais cabicancas distritais) seja bicho morto (cabicanca – ave – ar – aviões – aviões-de-papel – papagaios-de-papel – festival; brincar com as palavras por vezes leva a algum lado e podemos percepcionar as relações com o que existe e se pode fazer existir… não digo que tenha sido este o caso) em quase todos os territórios desse território que é o nosso.

 

N.A. – A baiana tem uma música que a imortaliza e uma descrição que corre mundo – parte verdade parte mentira. (…)”E tem graça como ninguém…!(…)”, disse a Carmen Miranda, mas nunca fui à Bahia e tenho sinceramente mais vontade de ir à Nazaré quando lá estiver um qualquer maluco das ondas gigantes a tentar quebrar recordes em Janeiro.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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