O que é a economia?

por João Fraga | 2014.01.19 - 16:14

Já é a terceira vez que esta questão me cria problemas.

A primeira foi com o meu (ex) amigo Zé quando, narrativa puxa narrativa, fazíamos um jogging no Jamor. Por causa desta questão, zangámo-nos. Ao ponto de ele ter abalado para Paris. Ultimamente, temo-nos (tele)visto por aí aos domingos, à hora de jantar. Muito fugazmente.

A segunda, foi com os meus (ex) amigos Varinho e Vitinho. Discutíamos os três filosofia (O princípio do fim do princípio) em Belém (com os pasteizinhos, claro) e, por azar, derivámos para esta questão. Deu zaragata, quase batatada. Talvez não faça as pazes com eles tão cedo. O primeiro, consta que vai para a OCDE, ou lá o que é. O segundo, não o tenho visto por aí, talvez tenha ido para o FMI.

Agora, foi com um casal que é (tele)visita frequente lá de casa, a Maria Luís e o Pedro (Marilu e Pi, para os amigos).

Para o que me deu! Em dia em que todos nos deveríamos concentrar só na grande área patriótica que foi a bola de ouro (de ouro, hein?) do Ronaldo, não é que, bejeca puxa bejeca (a Marilu só tomou chá e sem açúcar), me deu para com eles cavaquear (com todo o consenso, esperava eu) sobre pieguices sem ajustamento a esse momento tão ou mais histórico que o 17 de Maio de 1640, perdão, de 2014?

Dizia-lhes eu: “Desde 2011, foram destruídos 300.000 postos de trabalho, 200.000 portugueses foram obrigados a emigrar, aumentam as situações de pobreza, as falências de pessoas e as desigualdades sociais, o acesso à saúde e a qualidade e oportunidade dos respectivos serviços públicos degrada-se outrotanto acontecendo com a educação e a segurança social, diminuem os salários, as pensões, o subsídio de desemprego, o de doença, o abono de família, o complemento social dos idosos. Enfim, deterioram-se as condições de trabalho e de vida das pessoas”.

Retorquia-me o Pi, sempre apoiando-se no olhar professoral, quase maternal, da Marilu: “És um irrevogável negacionista! Então, não vês que há um extraordinário aumento das exportações e da produção industrial, que se protegeram, vendendo-os, activos estratégicos como a ANA, a EDP, a REN, os CTT e a CGD-Seguros, que as maiores riquezas estão cada vez mais ricas, que em 2013 foram criados quase 120.000 (só faltaram 100.000) postos de trabalho, que vão ser requalificados 25.000 trabalhadores da função pública, que vamos arrecadar 300 milhões de euros no (do) Serviço Nacional de Saúde, que nos ajustámos às metametas (para além das metas) que impusemos à troika, que, enfim, há uma sólida e consistente recuperação da economia?”

Ora, foi aqui que eu, mais uma vez, devo ter arreado bronca. Pois não é que os dois, Pi e Marilu (sempre tão serena a falar de assuntos complexos, por exemplo, de swaps!), se levantaram bruscamente da mesa e abalaram, fuzilando-me com os olhos?

Terá sido só, só mesmo, por eu lhes perguntar: “Pois! Mas, digam-me lá, o que é a economia?”

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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