O protagonista improvável do VII Congresso do MPLA

por Carlos Cunha | 2016.08.20 - 11:32

 

O Movimento Popular de Libertação de Angola, mais conhecido por MPLA, é um partido político, de inspiração marxista leninista na sua fundação, presidido há quase quarenta anos pelo mesmo líder, José Eduardo dos Santos, também alcunhado pelos seus compatriotas de Zé Dú.

Eduardo dos Santos sucedeu, no longínquo ano de 1976, a Agostinho Neto, primeiro presidente angolano do pós-colonialismo, devido ao falecimento deste. Durante longos anos travou uma sangrenta guerra civil contra a UNITA, União Nacional para a Independência Total de Angola, há época liderada por Jonas Savimbi, que viria a conhecer o seu epílogo em 2002. A vitória do MPLA abriu caminho para o acesso ao poder que não mais viriam a largar.

Atualmente, a UNITA é o segundo maior partido angolano com 32 deputados eleitos num total de 220, Wikipédia dixit.

O congresso do MPLA tem como tema dominante a sucessão de Eduardo dos Santos, que anunciou a sua saída da vida política ativa em 2018. Nada que aparentemente nos abra a boca de espanto dada a sua provecta idade e os longos anos que leva na liderança do país. Mas qual gato com sete vidas e sete fôlegos, Eduardo dos Santos foi eleito, no presente congresso, com 98% dos votos e será o candidato do partido às próximas eleições presidenciais que serão em 2017. Podemos assim dizer que candidato que ganha não se substitui ou em alternativa considerar que o debate interno é algo perfeitamente acessório e dispensável no seio do MPLA.

Para a maioria dos portugueses pode causar uma certa estranheza esta longevidade política de Eduardo dos Santos, até porque felizmente temos por cá legislação que impõe limites temporais ao exercício da governação. Em Angola tal ainda se afigura como uma quimera longínqua, pelo menos enquanto for Zé Edú a ordenar.

É incontestável que Angola atravessa uma grave crise económica, após vários anos de prosperidade e pujança financeiras, que a tornaram num alvo muito apetecível para investidores e grandes empresas estrangeiras. Enquanto Portugal atravessava entre 2011 e 2014 o pico da crise económica, Angola crescia mais de 10% ao ano, fruto da subida exponencial do preço do petróleo, principal fonte de receita da economia angolana. Muitos portugueses encontraram nesses anos dourados em Angola um destino privilegiado de oportunidades de trabalho bem remunerado. Foi um tempo de muitas obras públicas e de um rápido desenvolvimento do setor da construção o que alavancou o consumo interno.

Alimentada pelas prebendas concedidas pelo generoso Zé Edú, o poder de compra da classe alta angolana cresceu até esta se tornar num dos principais clientes das lojas de luxo da Avenida da Liberdade em Lisboa. As receitas do petróleo davam para tudo e contribuíram para que Isabel dos Santos se tornasse na mulher mais rica de África e numa das mais poderosas e respeitadas empresárias estrangeiras em Portugal, a quem a maior parte dos políticos portugueses escancararam portas e prestaram vassalagem.

Com a queda do preço do petróleo, o crescimento da economia angolana contraiu-se e os emigrantes portugueses começaram a enfrentar dificuldades como atrasos no pagamento de salários e nas transferências de dinheiro para a lusa pátria. As expectativas arrefeceram e Eduardo dos Santos teve de colocar a filha à frente dos destinos da Sonangol, considerada a galinha dos ovos de ouro do regime angolano, fechando a sete chaves o cofre angolano.

Hélder Amaral tornou-se involuntariamente protagonista deste VII Congresso do MPLA, no qual esteve presente em representação do CDS-PP. Não sendo Amaral um homem do mundo dos negócios, as suas palavras ainda que extemporâneas, podem remeter-nos para uma classe política em que o pragmatismo capitalista supera as ideologias mais arreigadas. Pelas reações internas de algumas figuras do CDS, também se percebe que a alcateia não dorme e há sempre quem esteja de plantão para filar o incauto.

 

 

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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