O PINHEIRAL DO MEU PAI NOS LAMEIRÕES

por Alberto Correia | 2016.07.03 - 21:56

 

Para os amigos, Leontina Fonseca e Paulo Barracosa,

dedicadíssimos cultores da Natureza.

 

mas há pouco, há poucochinho,

                                  Nem uma agulha bulia

                                  Na quieta melancolia

                                  Dos pinheiros do caminho.

                                                                         Augusto Gil – Balada da Neve

 

De um tempo bem antigo, de ainda infante, não me lembro, quando meu berço, feito chale de minha mãe, pousava em tempo de sementeira, de ceifa ou de apanha de outro fruto na beira do pinheiral da pequena Quinta do Valbom que fora já de meus avós.

Lembro-me antes de um tempo de infância, a razão iluminando caminhos, como então se dizia, da vaguidão dos fins de tarde em tempo de primavera ou de verão em começo, da mansa sedução da sombra do pinheiral por onde vagueava quando ao lado se ouviam cantos de mulher na monda do linho ou os romances de amor antigo que entoavam os ceifeiros.

Lembro-me desse incerto tempo de adolescente e de uma juventude primeira, remansoso tempo de férias grandes de estudante, lembro-me dos trabalhos e dos dias marcados nesse demorado calendário de que era partícipe também, camponês que agora resto sem hortas de lavoura, lembro-me das horas vagas em que me acolhia ao pinheiral, livros que levava e nunca lia, sentado à sombra, tão chamativa a sombra, tão loquaz o murmúrio do pinheiral, tão embalador o canto das rolas, tão intenso o pensamento intentando decifrar destino nos riscos da luz tremeluzindo na copa alta dos pinheiros.

Chão de paraíso e terra dos homens em simultâneo, o pinheiral, místico despertar de um princípio de mundo, sementes voando do seio aberto das pinhas maduras com o ventinho arisco, depois do calor, e o chão em volta se povoando cumprindo desígnios do Criador. E os resineiros que por lá andavam nos meses de verão e as mulheres da colha que descansavam cantando à beira de uma fonte que nem sempre era de amores.

E os carrinhos de corcódoa que se aprendiam a fazer, arquitectura breve de tardes inteiras. E a vistosa poesia das varas enfeitadas de laranja e flores no Domingo de Ramos, pinheirinhos novos, a casca por inteiro com vidros rasgada, os ramos armados como braços de andores, que andores eram, nesse dia sagrado, nas ruas da aldeia, na procissão.

E os serradores que por lá andavam, serras de peito, gestos de braços indo e vindo, tábuas de berço, chão de caixão, caibros e ripas de telhado vão, tábuas de solho, falheiras pobres para divisão. E a estacaria de vinha ou feijão, o varedo da sebe ou do fumeiro.

E os carros de bois com lenhas de inverno indo a chiar. E os molhos de caruma que apodrecia no chão da quintã para estrume de nabal ou que ardia no chão da lareira, ou aquecia o forno comunal, ou ardia na eira, com as castanhas e o vinho nos velhos magustos de S. Martinho.

E a velhinha que pousava no caminho, no sítio das Alminhas ou no dito As Três Irmãs, um feixe de tangos*, um saco de pinhas ou um cesto de tocos**, mal-cheio, lume de inverno no negro da pedra de uma lareira.

E no verão os estranhos comboios das lagartas, o interminável caminho das “processionárias” de que os meninos quebravam, a medo, o ritmo e elas logo o tornavam a achar.

Pinheiro bravo se chamava a estes pinheiros da Quinta de meu pai. Talvez da teimosia com que se fincavam no chão pedregoso das encostas, talvez da coragem com que enfrentavam, de inverno, a ventania. Não sei. Mas foi assim que eu os amei. Verticais, altivos, fortes, direitos, sempre iguais, como alguns homens não são, infante, adolescente, jovem, homem feito, bravos pinheiros, exemplo maior, tanto quanto a vida de meu pai.

 

* – Tangos – ramos secos de pinheiro.

** – Tocos – Pedaços retirados de um tronco de pinheiro meio apodrecido.