O paradoxo da partida!

por João Salgueiro | 2015.12.26 - 15:17

 

Os últimos tempos, em Portugal, têm sido regidos pelo signo da partida. A partida dos nossos jovens para a emigração, a partida do anterior governo – que para alguns foi traumática – e a partida daqueles que nos são mais próximos e que acreditamos que jamais nos deixarão.

A descoberta do filme “A família Bélier” espoletou em mim uma dualidade de sentimentos, nestes dias de festividades e de encontros da família.

No filme, um casal de surdos, com dois filhos, vive feliz numa região rural, algures em França. A vida campestre e o contacto com a natureza dão o mote para um agregado familiar que faz do trabalho, da entreajuda e da vontade de vencer um lema de vida, inserido num contexto comunitário que nem sempre se afigura como o mais solidário. A filha, que nasceu com as faculdades que faltavam aos pais e ao irmão, constituía o elo de ligação com o exterior da família, nos negócios da carne e do queijo e, em paralelo com a ajuda prestada no empreendimento agrícola e comercial, frequentava a escola – que se afigurava como um apêndice numa vida familiar prenhe de afetos, mas repleta de responsabilidades.

A descoberta ocasional de um dom que a natureza lhe proporcionou despertou na jovem novas paixões, levando-a a alimentar o sonho de seguir a sua própria vida e voar. Mas só o poderia fazer se partisse para Paris.

Os dilemas que se seguem ao longo do desenrolar do filme fazem emergir um turbilhão de emoções. Nos pais, que acreditavam que aquela vida em família iria durar para sempre, acalentando a esperança de que a capacidade de falar e de ouvir da filha, surdamente vista como uma força inimiga, nunca os iria separar. Na filha que, rotinada na vida que sempre levou no berço ancestral, encontrava aí a segurança de uma vivência refugiadora e que temia lhe fosse escapar na partida para Paris.

É neste turbilhão de emoções que nós pais – como também os nossos filhos – ficamos quando os vemos confrontados com a necessidade de partir e voar, construindo percursos de vida próprios e singulares, temendo que tal se traduza num corte de relações identitárias.

No filme, o elo de ligação foi encontrado através da língua gestual, através da qual a filha traduzia para os pais e o irmão o significado das palavras que cantava, perante um júri severo, mas que também ele se rendeu à emoção e ao dom da rapariga para cantar.

Nas nossas vidas, confrontamo-nos com estes paradoxos, sempre que nos vemos perante valores diferentes que nos obrigam a sopesar e a tomar decisões entre alternativas, as quais têm de ter sempre em conta a nossa felicidade, mas que também hão de incluir a felicidade do outro.

Assim, entre um egocentrismo de quem, desde sempre, se habituou a pensar que a criação sempre ficaria perto de nós, impelindo-nos a acreditar que o que é bom para nós também o é para os nossos filhos, e a grandeza de considerar que os nossos rebentos têm o dever de procurar a felicidade na procura de uma vida própria, embora emocionalmente despedaçados, somos levados a tomar a decisão que se impõe: a de deixá-los partir para voar, construindo o seu próprio destino e trajeto de vida.

Sendo diferente, a felicidade deles, também se torna a nossa própria alegria de viver.