O Papa e a sua circunstância

por João Fraga | 2014.01.16 - 14:57

Quase todas as avaliações das “personalidades do ano” que por aí se fazem coincidem em eleger, para além de Nelson Mandela, o Papa Francisco.

Contudo, pelo menos no que concerne às posições deste Papa relativamente à economia e à política, muitos há que o criticam, dizendo que “não percebe nada de economia”, que está a ser “gravemente desmobilizador dos frutos da austeridade que importa não abrandar”, que “não passa de um populista”.

Mais: “comentadores” e “fazedores de opinião” há que o desvalorizam por “não dizer nada de novo”, visto que “repete o que está dito e redito, desde o século XIX, na Doutrina Social da Igreja”.

Ainda que não sob um ponto de vista estritamente religioso, teológico ou eclesiástico (por esses prismas, um dos que a este assunto se referiu foi Frei Bento Domingues, nas edições do jornal PÚBLICO de 8 e 29 de Dezembro de 2013), merecem alguma reflexão estas avaliações críticas sobre o Papa Francisco. Sobretudo, de um ponto de vista mais de análise social (e, necessariamente, política), o que lhes está subjacente e o que podem significar.

Convenhamos em que parece haver alguma pertinência, pelo menos, na observação de que o Papa Francisco “não diz nada de novo, repetindo o que está dito e redito, desde o século XIX, na Doutrina Social da Igreja”. De facto:

1) “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Neste sistema que tende a devorar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa perante os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta. Esta economia mata” (Francisco, Evangelii Gaudium, Novembro de 2013);

2) “O servilismo dos poderes públicos aos interesses de grupo acabou no imperialismo internacional do dinheiro” (João XXIII, Mater et Magistra,Maio de 1961);

3) “À liberdade de mercado, sucedeu a hegemonia económica, à avareza do lucro seguiu-se a desenfreada ambição do predomínio, e assim toda a economia se tornou horrivelmente dura, inexorável, cruel” (Pio XI, Quadragesimo Anno,Maio de 1931);

4) “Os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada. A usura voraz (…) não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão de proletários” (Leão XIII, Rerum Novarum: sobre a condição dos operários, Maio de 1891).

Há que reconhecer que, realmente, com a devida ponderação contextual e temporal, o Papa Francisco, no documento Evangelii Gaudium, pelo menos no que respeita ao essencial de “alguns desafios do mundo actual” (Capítulo II), “não diz nada de novo, repetindo o que está dito e redito, desde o século XIX, na Doutrina Social da Igreja”.

Contudo, para além do que (o quê) o Papa diz, interessa reflectir por que razão (porquê?) o diz.

Ora, quanto a isto, é de nos questionarmos sobre as razões que levaram o Papa Francisco, em 2013, a escrever um documento (Evangelii Gaudium) que, pelo seu conteúdo (sobretudo do capítulo II), parte de (denuncia) circunstâncias que, ainda que “sob uma forma nova”, no essencial, são análogas às que levaram alguns seus antecessores “desde o século XIX, na Doutrina Social da Igreja”, a preocuparem-se com algo idêntico.

E assim, por este prisma, ficam três inerentes perguntas:

a) Andou a Igreja (salvo honrosas excepções singulares…), entretanto, durante dezenas de anos, por acção e/ou omissão, distraída, conformada, quiçá comprometida, com o avanço desta “economia que mata” a que se refere o Papa Francisco?

b) Denunciando circunstâncias idênticas às que já foram denunciadas por antecessores do seu autor há dezenas anos, não será também este documento do Papa Francisco um qualificado sinal do acelerado e profundo retrocesso humano, social e civilizacional que tem estado (e continua) em curso?

c) Serão estas circunstâncias que querem escamotear (e manter) os que, acerca da Evangelii Gaudium, se concentram em criticar o Papa como “populista” e “plagiador”, fazendo esquecer que, afinal, como todos(as) nós, o Papa, parafraseando José Ortega y Gasset, “é ele e a sua circunstância”?

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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