O Nome da Rosa de Umberto Eco

por Vitor Santos | 2016.02.23 - 20:45

 

Faleceu Umberto Eco, autor de “O Nome da Rosa” (1980), que tinha um olhar crítico e comentários polémicos sobre temas do cotidiano, da sociedade, da cultura e da política.

Escolho “O Nome da Rosa” como o meu livro favorito e que tem numa adaptação cinematográfica um complemento perfeito. Raramente um livro e filme se equivalem na sua excelência.

Não existe a menor dúvida de que “O Nome da Rosa” é uma obra labiríntica – daí apaixonante, cujo conteúdo é muitas vezes insondável, como a verdade que guarda e quiçá enganador como a mentira, não chegando, no entanto esta, a efetuar a sua aparição. Qualquer romance é suscetível de possuir as mais diversas interpretações para além daquela que as palavras escritas pelo autor efetivamente querem significar. Como sabemos, as palavras podem ser unívocas, análogas e até equívocas, podendo dar azo às mais variadas explicações. No entanto, esta diversidade de significação possível, não quer dizer que todas as obras pretendam propositadamente esconder o seu sentido real e verdadeiro. Porém, embora nem todos os livros tenham como objetivo principal enganar os seus leitores, outros existem que possuem na sua construção verdadeiros labirintos, onde a sua mensagem real é muitas vezes de difícil interpretação.

Umberto Eco chega a afirmar que “até mesmo o leitor mais ingénuo terá pressentido que se encontra perante uma história de labirintos, e não de labirintos espaciais!”. Esta frase revela a verdadeira estrutura deste romance: uma história de labirintos, pois ela “ramifica-se em muitas outras histórias, todas elas histórias de outras conjeturas, todas girando em torno da estrutura da conjetura, enquanto tal. Um modelo abstrato de conjetura é o labirinto”.

Agora se tivermos em conta que o conteúdo de uma “obra labiríntica” serviu de base a um filme, facilmente se concluí o quão árduo foi a tarefa de interpretação. Tarefa que está direcionada para o percurso palmilhado pela personagem principal deste romance, Guilherme de Baskerville, que a determinada altura da obra, pronuncia as seguintes palavras: “…A vida da ciência é difícil, e é difícil distinguir aí o bem do mal. E frequentemente os sábios dos tempos novos são só anões aos ombros de anões.”

A leitura deste romance e/ou a visualização do filme, contribuem de sobremaneira para o aperfeiçoamento do conhecimento sobre a história da Idade Média. Este romance alimenta-se da História para, através das personagens nele relatadas, dar a conhecer os conflitos e as grandes preocupações daquela época. Enquanto pela leitura do romance, em certas partes, nos sentimos perdidos, tal é a riqueza de descrições, no filme, essa descrição é organizada, funcionando como uma história de efeitos mais ou menos compensadores, mais objetivos e até mais “rápidos”.

As diferenças entre a personagem principal no livro e no filme, não são assim tão significativas. Ambas “transpiram” coerência, retidão, bom senso e sentido de justiça. São no entanto vividas pelo leitor e pelo telespetador de forma diferente. Enquanto no livro podemos circular livremente, voltar atrás, comparar as situações, no filme, estamos submetidos ao encadeamento das imagens, ao fluxo sonoros e ao seu ritmo regulado, pois o filme desenrola-se fora de nós, sem intervenção possível da nossa parte.

Em 2011, Eco dizia em entrevista que “as pessoas estão fartas de coisas simples, querem ser desafiadas”. Contas feitas, essa era uma convicção que o acompanhava há muito. Por isso escreveu “O Nome da Rosa”. Imperdível.

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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