O MISTÉRIO DAS 61800 PESSOAS DESAPARECIDAS

por Norberto Pires | 2013.12.27 - 19:14

Depois de ouvir o PM dizer textualmente “Ao mesmo tempo, o emprego começou a crescer e, em termos líquidos, até ao terceiro trimestre foram criados 120 mil novos postos de trabalho” na sua mensagem de natal, o que assumi ser um erro de um assessor menos experiente e menos cuidadoso (é inacreditável que ninguém verifique as informações que o 1º Ministro transmite ao país), fui olhar para as estatísticas do INE. Vi os boletins de Emprego do 1º, 2º e 3º trimestres de 2013 dos quais retirei os dados seguintes.

População Empregada
Final do 4º trimestre de 2012: 4 531 800 pessoas
Final do 1º trimestre de 2013: 4 433 200 pessoas
Final do 2º trimestre de 2013: 4 505 600 pessoas
Final do 3º trimestre de 2013: 4 553 600 pessoas

Ou seja, de Janeiro a Setembro, o nº de pessoas empregadas aumentou 21 800 pessoas ( = 4 553 600 – 4 531 800).

Reparei ainda num outro número que vem nos mesmos boletins do INE.

População Desempregada
Final do 4º trimestre de 2012: 923 200 pessoas
Final do 3º trimestre de 2013: 838 600 pessoas

Ou seja, entre Janeiro e Setembro de 2013 existem menos 84 600 desempregados.

Mas? Como pode ser isso se o nº de empregados só aumentou 21 800 no mesmo período? Onde estão os misteriosos 61 800 restantes?

Numa leitura cuidada, há ainda outro número muito interessante (pela negativa). Reparei nele, porque imaginei que o assessor do PM que tem dificuldades com contas de subtrair era muito novinho. Vejamos então os números relativos ao grupo etário entre 15 e 34 anos:

População Empregada (dos 15 aos 34 anos)
Final do 4º trimestre de 2012: 247 300 + 1 036 800 = 1 284 100
Final do 3º trimestre de 2013: 260 700 + 1 017 800 = 1 278 500

Isto é, neste grupo etário o país PERDEU 5 600 empregos.

Olhando par a População Desempregada (dos 15 aos 34 anos)
Final do 4º trimestre de 2012: 164 900 + 260 000 = 424 900
Final do 3º trimestre de 2013: 140 600 + 232 600 = 373 200

Ou seja, neste grupo etário existem MENOS 51 700 desempregados.

Esses 51 700 jovens não arranjaram emprego, porque o número de pessoas empregadas baixou 5 600. Para onde foram?

Eu diria que um assessor cuidadoso que compila informação para o PM deveria reparar nestes números, e alertar o PM para a necessidade de os explicar.

É que este mistério talvez não seja, INFELIZMENTE, um mistério assim tão grande e mostra uma realidade bem mais preocupante do que aquela que o PM quis dar a conhecer.

IGNORAR estes números, evitar o debate das causas e consequências, bem como a total ausência de políticas para os minimizar é algo que me deixa envergonhado como cidadão nacional.

Como já alguém disse, e muito bem, os números são para ser vistos com realismo, dando o tempo (período de observação, dimensão das séries) suficiente para que as tendências estabilizem e se possam tirar conclusões. Observar um evento e tentar, a partir dele, concluir seja o que for é pouco sério e nada esclarecedor. E só pode ter um objetivo: enganar.

Nota: depois de escrever este texto, o qual coloquei numa versão mais reduzida na minha página pessoal do facebook, li um comunicado inacreditável do Ministério do Emprego e Segurança Social. Nesse comunicado o Ministro faz ainda pior que o PM, pois não reconhece o erro inserido na mensagem de natal, que é mais do que evidente, mas acima de tudo afirma que o ministro tira conclusões ignorando os resultados do 1º trimestre, e considerando somente os resultados do 2º e 3º trimestres. Pois é Sr. Ministro, se torturar os números, se os agredir fortemente com um martelo, se lhes espetar agulhas e ameaçar ferozmente decapitar os algarismos, tenho a certeza que eles, exaustos e amedrontados, confessam o que o senhor quiser.

O problema deste Governo não é falta de vontade, de voluntarismo e de determinação. Não é a falta de coragem, nem, de facto, uma genuína vontade de resolver os problemas nacionais. Digo genuína porque não duvido dela. O problema deste Governo é a impreparação, a inacreditável confusão e descoordenação, que permite que o PM emita uma mensagem de natal cheia de erros, a ausência total de estratégia, de ponderação, de experiência, de conhecimento e de bom-senso. Triste. Muito triste.

Fonte: INE, Estatísticas de Emprego do 1º, 2º e 3º trimestres de 2013

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Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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