O meu professor de Português – In memoriam ao Dr. João Mendes

por Ana Albuquerque | 2015.09.13 - 16:20

 

 

 

Setembro é o mês do recomeço das aulas. É o regresso à azáfama dos dias.

De entre as imagens da minha vida como aluna, afinal eu sempre fui estudante, há uma que não desbota, porque há coisas que a borracha do tempo não apaga, a do meu professor de Português, no Externato de Sátão: o Dr. João de Deus Mendes!

Há professores que nos marcam pela sua sabedoria, pelo seu engenho, pela sua mestria na arte de ensinar, pela sua generosidade como seres humanos. Com ele aprofundei um gosto inato pelas Letras. Com ele li e ouvi ler, pela primeira vez, a grande e mítica aventura de Ulisses, o herói lendário, perdido nos mares, cerceado de perigos imaginários, mas simbólicos das dificuldades da vida, até ao seu regresso ao manto de Penélope! A ele devo o gosto pelos clássicos!

Foi com ele que li muitos textos de Aquilino. Lembro-me, muito bem, do Malhadinhas a entrar, de rompante, com aquele seu jeito brigão, na sala de aula e daquele vocabulário do povo da Beira, de um povo sofrido pelas agruras da terra, mas de um povo enérgico, desafiador das forças malévolas do demo.

A ele devo a afirmação do gosto pela escrita, em letra pequena, bem desenhada, com uma construção sintática ordenada, rigorosa.

Sempre me apoiou ao longo do meu percurso escolar, reconhecendo e fazendo reconhecer aos outros aquilo que ele considerava de elementar justiça: o acesso e o prosseguimento de estudos para mim e outros filhos de famílias com menos recursos.

Ao longo da minha vida profissional, contei sempre com ele, quer no empréstimo de livros, quer nos diálogos que tínhamos sobre a escola e sobre a vida. O seu olhar, o seu sorriso discreto, a forma como continuou, até ao fim, a pronunciar vincadamente, com todas as sílabas, o meu nome, Ana Maria, sempre foram um reforço para que eu não desistisse de aprender, aprender sempre! E sei que ele tinha (tem) orgulho na sua discípula.

Neste início de ano escolar, quero evocar a figura deste grande mestre! A ele devo todo o respeito e a gratidão que não acaba nesta memória. A ele peço, onde quer que esteja, que continue, de livro aberto, na sala de aula e olhe para mim e me mande prosseguir a leitura…