O mealheiro do povo foi chão que deu uvas

por Nuno Rebocho | 2015.08.14 - 23:45

Cartas de longe

 

Chamavam-lhe o mealheiro do povo, mas foi chão que já deu uvas – a grande velocidade de crescimento do pinhal e do eucaliptal fez que o proprietário, o agricultor, nele pusesse a esperança em ganhos com a venda de madeirame às fábricas de celulose que, impulsionada pela cega política do corporativismo, se foi incrustando no tecido do país. Essa foi igualmente a faúlha que se instalou nas matas, calcinando cabeços e outeiros, íngremes ravinas, plainos, ameaçando aldeias e devorando casas isoladas, porque a ânsia de lucros fáceis acabou por despertar incendiários que, como lobos, se infiltraram entre as árvores. São essas mãos criminosas que, sem escrúpulos, acossam as florestas, tantas vezes açulados pela teia dos madeireiros.

O que recentemente aconteceu em Tondela, onde as chamas mataram bombeiros, veio uma vez mais obrigar a enfrentar esta amarga realidade e a exigir mão firme para os contrariar. Que ninguém mais tenha dúvidas – o incendiário é um assassino sem piedade e como tal deve ser punido. A pena mais dura lhe deve ser imposta, sem clemências de qualquer espécie, sem a indevida aplicação de atenuantes. E enquanto houver desajustadas piedades para quem ousa atear os infernos onde apenas deveria haver a frescura de sombras, andam à solta as mãos que semeiam a dor, o pânico e o luto.

O despovoamento das províncias e a consequente redução da mão-de-obra vieram agravar os custos da manutenção da mata já marcada pela resistência dos pastores que contrariava a invasão da celulose. Progressivamente ficou o coberto vegetal ao abandono, infestado de lixos e de produto combustível, tornando explosiva uma situação afetada pelas crescentes secas e caloraças – o clima ambiental a rogar pragas ao político desleixo das gentes. E as espalhadas radículas do arvoredo, ocultas pelos solos, projetaram as chamas sobrevindas para espaços geográficos cada vez mais vastos, fazendo o combate ao sinistro dada vez mais difícil.

Perdeu-se entretanto o escol dos velhos comandantes que bem conhecia os segredos e as artimanhas do fogo, com um saber empírico de experiência feito, sacudido pela idade, pela reforma e pelas perturbações políticas que imprudentemente se colocaram de permeio a partir sobretudo dos anos 80. Ao alastramento da área ardida impôs a necessidade de trazer contingentes de soldados da paz das zonas urbanas, inscientes das orografias e geografias, mal conduzidos por quem os lidera, apesar de (tal é inegável) as companhias de bombeiros terem melhorado os equipamentos, reforçados com material aéreo. Todavia, o elemento humano continuou determinante para o exigido combate.

Por conseguinte, um novo panorama surgiu no quadro dos incêndios florestais e, com ele, agravou-se a situação, com um inesperado aumento do número de acidentes e mortos. E, não se encarando frontalmente a nova realidade, é de esperar que a atual tendência não registe decréscimo. Desde logo, enquanto não se tomarem medidas eficazes para a limpeza das matas, o que passa por um reforço das capacidades municipais e uma oportuna reforma da política silvícola a nível nacional, óbvio é que Portugal continuará a arder.

É isso que se pretende?