O mapa do meu Natal…

por Amélia Santos | 2016.01.27 - 10:27

 

Passei a época de Natal a dizer a quem perguntava, ou abordava o tema, que não tinha recebido nenhuma prenda natalícia. Porque, de facto, há muito deixei de achar qualquer graça a este consumismo exacerbado por estes dias festivos. Ao longo dos últimos anos fui acordando com os mais próximos que não fazia sentido, que as prendas se devem dar (porque é muito bom dar e receber prendas!) quando nos apetece e não porque o calendário católico e «painatalício» assim nos impõe… Mas, na verdade, andei a mentir sobre o assunto, porque eu recebi uma prenda, sim. Uma prenda inesperada, oferecida pela minha filha: um mapa!

Muito atenta a algumas coisas de que gosto e aprecio, ela terá registado que eu tenho um fascínio desde garota por mapas. E, de facto, agora confirmo que passava a vida a dizer que tinha que comprar um mapa, porque o globo que tenho há anos (também oferta de um irmão atento…) está desatualizado e já gasto…

Então, numa tentativa de repor a verdade, assumo que tive direito a uma prenda especial e que há muito ansiava possuir… Mas, porquê um mapa?

Tantas vezes já me interroguei sobre o assunto. Talvez porque recordo a emoção que senti, quando, já crescidinha, olhei pela primeira vez e com olhos de ver para o mapa-mundi. Foi indescritível, foi como se, por magia, de repente, tivesse todos os países ao meu alcance, visitando-os com os olhos, percorrendo com os dedos continentes inteiros, espreitando cidades míticas e seus monumentos. Estas foram seguramente as minhas primeiras viagens, que localizaram países e capitais, fronteiras e mares e me ajudaram a organizar a geografia mundial. Mas, hoje, volvidos tantos anos, continuo a sentir o mesmo fascínio pelo desenho dos países e continentes. Pelo recorte da bota que é a Itália. Pela peça do puzzle da América que desencaixou da África. Pela cultura, tradições e mistérios que cada um encerra.

Continuo a pasmar com a grandeza da Rússia e da China. Com o caminho marítimo para a Índia percorrido pelos extraordinários navegadores portugueses. Com o Brasil descoberto por Pedro Álvares Cabral. Com a Argentina, o Chile, o Perú e todos os países hispanos, calcorreados pelo nosso eterno comandante Che Guevara. E com a nossa velha Europa. Não me canso de indagar o mar mediterrâneo e todas as grandes civilizações que ao seu redor e, pela sua mão, nasceram e floresceram. É imperativo para quem estuda a História do Antigo Egipto, da Grécia Antiga ou do Império Romano observar um mapa, delinear fronteiras, compreender influências. Tentar alcançar a estratégia de guerras, batalhas e comércios. Porque, no mediterrâneo cruzam-se três continentes – Norte de África, Sul da Europa e Oeste da Ásia. É impossível não nos sentirmos deslumbrados por toda esta geografia… Pelo sonho que representa. Pelas viagens que nos incita a fazer. É impossível não me sentir deslumbrada pelos mapas…

O que me levou a revisitar o meu mapa este fim-de-semana foi um artigo que li de Clara Ferreira Alves, onde falava da cidade de Alepo, a segunda cidade da Síria, agora completamente destruída e ao abandono… A guerra na Síria e a crise dos refugiados acabam por nos prender novamente a atenção, uma atenção que se centra, mais uma vez, nas imediações do mar mediterrâneo. Aqui as grandes civilizações nasceram, floresceram e morreram. Esta região foi palco de grandes episódios de ascensão e queda. De esplendor e de sombras. Neste momento a violência, a miséria e a morte sobrepõem-se a tudo o resto. Tenhamos esperança num futuro de reversão, de renascimento, de vida…

É imperioso que se olhe de novo para esta região mítica e que consigamos acreditar que um novo  Natal acontecerá neste mapa… Que o mar mediterrâneo medite e devolva a grandeza e esplendor a esta região de saber ancestral…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

Pub