O imigrante em Viseu

por Fernando Figueiredo | 2019.06.11 - 09:10

Ontem foi Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas é também dia de olharmos à nossa volta e percebermos o quanto o concelho de Viseu mudou nos últimos anos na sua demografia.

Se a estatística do INE nos mostra que o concelho tem perdido gente nos últimos anos também é notório que esse efeito parece não pesar negativamente na dinâmica regional. A razão mais plausível que sem mais dados de analise se encontra para esse facto terá a ver com a imigração que hoje, um pouco por todos os bairros, por todas as freguesias, se sente no concelho. A maior comunidade será a brasileira logo seguida pela ucraniana havendo ainda a registar a presença de indianos, chineses, moldavos, russos, etc… não esquecendo muitos outros de países nossos irmãos dos demais países da CPLP.

É, portanto, necessário, como outrora já referi, que os “novos viseenses” sejam incluídos num processo de responsabilidade partilhada entre sociedade local e imigrantes com a Autarquia a coordenar as estratégias de actuação concertadas das diferentes entidades que intervêm na área das migrações, a nível local, e que concorrem para a concretização do processo multivetorial dos imigrantes na sociedade local. É facto, que é, também, através cada um de nós, naquela que é a nossa esfera de actuação pessoal que a integração acontece: no nosso prédio, na nossa rua, no nosso bairro, na nossa comunidade.

Importa também perceber que a partir do momento que o imigrante escolhe Viseu passa a ser um dos seus embaixadores, não daqueles de interesse meramente pessoal e que a autarquia promove com a finalidade de funcionar como um sindicato de voto, mas sim um promotor funcionando como a melhor publicidade da região se bem acolhido ou como o mais feroz detrator se a experiência de busca de uma nova vida se revelar um fracasso. A título de exemplo, bastará comparar a participação dos brasileiros nas redes sociais e nos canais de youtube para se perceber desta afirmação. Um vídeo do Cabeludo em Portugal por exemplo, um casal de brasileiros residentes em Viseu, ao fim de uma semana tem mais visualizações que um vídeo institucional do Visit Viseu ou qualquer outro que saia da imaginação pródiga do marqueteiro-mor cá do burgo e com uma grande diferença, o vídeo do Cabeludo custa zero ao erário público e os do visionário promotor da Praça da República estão publicados no Portal Base e é melhor nem os somarmos para garantia da nossa sanidade mental.

Num curto inquérito de opinião junto da comunidade é possível confirmar a veracidade da afirmação acima. Quase metade dos inquiridos escolheram Viseu para viver não pelos slogans propagandísticos da autarquia, mas sim por influência de família ou amigos. Para outra fatia significativa de quase 30% foi o acaso e apenas 7% assumem ter sido uma primeira escolha, prova de que há muito espaço de progressão na divulgação da cidade e caso para questionar se a estratégia que está a ser seguida é a mais eficaz face aos recursos empenhados na mesma.

A questão do alojamento não se oferece como uma dificuldade de grande peso na escolha e permanência do imigrante pois na opinião da amostra cerca de metade encontrou casa. Nesta matéria, contudo cerca de 25% estando alojados gostariam de melhorar as suas condições e um residual de 10%, número ainda expressivo, afirma ser difícil arranjar casa, seja pela tipologia seja pelo preço.

80% dos imigrantes alugaram casa, 15% vivem em casa de familiares ou amigos, os restantes dividem casa entre si e importa anotar que mesmo nesta pequena amostra 2,5% optaram por compra de habitação própria, o que também indica um imigrante com outras expectativas que não apenas um emprego seguro.

Curiosa é também a estatística quanto à situação laboral. Assim, apenas 10% afirmam ter sido fácil encontrar emprego, outros 20% dizem ter conseguido emprego mas fora da sua área de qualificação ou especialização, 20% desta comunidade optou por criar o seu próprio emprego o que denota um espirito empreendedor de realçar e apoiar, outros 20% distribuem-se por situações diversas sendo alguns estudantes e de preocupante é o facto de cerca de 30% da amostra do inquérito ainda continuar à procura de trabalho.  Este facto relaciona-se também com a questão da colocação dos filhos no ambiente escolar e aqui 33% dizem ter sido fácil resolver essa preocupação, 14% ainda mantém esse problema e espera solucionar no próximo ano lectivo e cerca de 10% diz que a burocracia do processo é enorme. Os restantes por não terem filhos ou serem alunos do ensino superior não pesam nesta preocupação social.

Mais de metade sente-se perfeitamente integrado na cidade, outros 15% apoiam-se na comunidade imigrante e cerca de 20% reconhece que ainda se sente isolado na cidade. A apreciação que têm do concelho e da cidade acompanha a expressão de integração. De 1 mau a 5 boa assim se divide o sentimento da comunidade quanto à cidade:

E também é interessante perceber o que mais os cativa na cidade e curiosamente, Viseu destino de gastronomia pouco pesa, sendo as questões da segurança, qualidade de vida e do ambiente (espaços verdes e limpeza) o que mais motiva a maioria a gostar da cidade.

Pelo inverso há variáveis que merecem preocupação e que devem ser combatidas, desde o preconceito e a intolerância, a frieza de alguns habitantes, a rede de transportes e a falta de autocarro nalgumas localidades, o preço face à ineficiência dos transportes, a falta de policiamento na Sé, a má conservação dos prédios, a falta de limpeza, a falta algumas lojas importantes como IKEA e Primark, as portagens da A25, poucas oportunidades de emprego e lazer, o aluguer caro e difícil, a falta de oportunidade de emprego para jovens e os baixos ordenados são alguns dos aspectos mais apontados pela comunidade como factores menos positivos ou até negativos na cidade e concelho. Nada que uma concertada politica social e empenhada autarquia não resolva, desde que exista vontade e interesse para tal.

Um bom princípio poderia ser a criação de um Gabinete Local de Apoio ao Imigrante com a inclusão de técnicos das várias instituições sociais (Seg Social, Educação, IEFP, etc) que junto com psicólogo, pedagogo, sociólogo e jurista apoiariam o processo de chegada, instalação, adaptação e integração do imigrante. A par disso, um boa campanha de sensibilização junto da comunidade levaria a que se organizassem à semelhança do que já acontece noutros locais do País, como por exemplo no Minho, em Braga, onde na sequência do crescimento do grupo “Olhar Brasileiro em Portugal: Braga”, na rede social Facebook, a idealizadora Alexandra Gomide avançou com a criação da “Associação Uai – União, Apoio e Integração”, com o objetivo de promover o acolhimento, inserção e integração das famílias da comunidade luso-brasileira em Portugal ou que estejam no Brasil com intenção de emigrar. Seria também uma forma de poderem reclamar do Espaço Imigrante, do seu Dia do Imigrante na Feira de São Mateus ou da criação da Casa do Brasil em Viseu, a titulo de exemplo.

São apenas 2 simples ideias que bem coordenadas potenciariam por um lado a integração dos que já contribuem para o PIB regional fazendo deles parte da sociedade ao invés de os marginalizar com tudo o que isso acarreta de grave e por outro lado apoiando o associativismo no grupo para que sejam embaixadores junto dos que fora queiram vir para Viseu e dentro de “policias reguladores” das situações marginais que o fenómeno da imigração também acarreta. Seria assim, uma situação “ganha x ganha”, a cidade por um lado e o imigrante por outro. É somando que se chega mais longe. Dividindo ou ignorando como a autarquia tem feito até aqui com o igual desinteresse da oposição não sairemos da politica do comes e bebes, engordando os mesmos de sempre esquecendo os que só pedem pão, trabalho e paz… foi isso que os fez ficar em Viseu, é a falta disso que os levará de novo para fora de Viseu!

Fernando Figueiredo

Forjado na Beira Alta, aos 56 anos dá-se por bem casado e aprecia a companhia de três filhos, dois ainda na fase de espalhar magia a toda a hora; em família dá-se como feliz, apenas por o fazerem feliz. Como os duros estudou na Academia Militar, que não é para meninos e na época em que ainda se viajava de pé no comboio mas teve ainda tempo para queimar as pestanas em Gestão de Recursos Humanos. 36 anos “militarizado” vê-se agora na reforma a procurar ser “civilizado”. Em termos profissionais esteve no Iraque e voltou para contar, também esteve em Timor onde bebeu água de coco e visitou Jaco, erro fatal que lhe deixou o coração preso nas valorosas gentes timorenses e nas paisagens únicas do País que ajudou a ver nascer independente já no Séc XXI. Nos tempos livre actualiza o blog mais lido e odiado do delta do Dão, o Viseu Sra da Beira, e ainda escreve textos para jornais mas, poucos o lêem. Homem sem grande preocupação em fazer amigos, escreve o que entende sobre quem não consegue entender. Tais liberdades já lhe valeram um par de processos em tribunal, sem nunca se ter declarado Charlie. A genética deixou-o sem um único cabelo mas está careca de saber que os valores do trabalho, da honestidade e da amizade são o maior legado que o pai lhe deixou. Benfiquista moderado, gosta mesmo é de um bom jantar na companhia dos melhores amigos. Agora como empresário e homem de negócios só aceita de lucro o necessário para viver e distribuir por outros e de comissão a 100% a ética, a responsabilidade e o profissionalismo. É garantidamente mais bonito ao vivo que em foto.

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