O HOSPITAL… UM MUNDO À PARTE

por Cílio Correia | 2017.01.22 - 14:00

A futebolização da vida do País foi interrompida para dar lugar às celebrações do 5 de Outubro que foram enriquecidas com o anúncio do Engº António Guterres como futuro Secretário-geral da ONU. Um feito que merece ser celebrado e enaltecido.

Antes que a futebolização regresse, tocado pela brisa fresca das manhãs outonais deu-me para falar convosco da vida hospitalar, da constatação de que no hospital há sempre uma ferida por sarar.

Convive-se todos os dias com a morte e o sofrimento, mas também há momentos de grande felicidade que importa valorizar que nos aquecem o coração e dão ânimo para continuar. Vive-se no fio da navalha, entre a vida e a morte. A vida hospitalar é um mundo, diria, à parte, difícil de compreender por estranhos. O confronto com as limitações da condição humana é constante. O grande milagre que atravessa as suas quatro paredes em todas as latitudes é não desistir nunca da defesa da vida, mesmo quando tal se afigura impossível. Esse é o grande milagre.

A primeira vez que nos debatemos com a morte e a natureza efémera da vida acontece em grande parte das vezes nos hospitais. É entre as suas paredes que se releva a importância da presença junto dos doentes e da humanização dos cuidados de saúde. Cada doente tem a sua própria história de vida que importa respeitar. Os profissionais de saúde são companheiros nessa etapa, mas não podem fugir da morte. E isso também lhes causa sofrimento. Nem sempre é fácil criar barreiras psicológicas. Ao prestar cuidados, o profissional toma consciência da sua vulnerabilidade. Miguel Torga, pseudónimo literário do médico Adolfo Rocha, exprimia isso com particular mestria e perspicácia, como era seu apanágio: “é a auscultar o coração dum paciente que sinto pulsar o meu com maior humanidade”.