O homem do impossível.

por João Figueiredo | 2013.12.12 - 11:46

Nelson Mandela é o nome mais ouvido nos últimos dias. Também não é para menos, desapareceu um homem universal que tornou o impossível em concretizável.
Nascido em 1918 numa familia de 13 irmãos da etnia Xhosa, perdeu o pai aos 9 anos o que o levou a mudar de aldeia, tendo começado um percurso brilhante que ficará eternamente registado no livro de ouro da História da Humanidade.
Ainda estudante de Direito lutou contra o regime do “apartheid” (que significava vida separada), que na prática correspondia à segregação racial que existia na África do Sul e que obrigava os negros a viver encurralados, cabendo aos brancos controlar o poder, gozar de plenos direitos políticos, económicos e sociais.
Durante anos lutou contra esse regime, primeiro de uma forma pacífica – tendo feito parte da elaboração da Carta à Liberdade, documento que defendia políticas antirracistas – e, mais tarde, depois de um massacre levado a cabo por polícias contra manifestantes negros, Mandela mudou de opinião e passou a defender uma luta armada contra o sistema político vigente.
Em 1964 é condenado a prisão perpétua. Mantem-se preso durante 27 anos tendo-se tornado num símbolo de luta anti-apartheid, período em que desistiu da luta armada mas nem por isso deixou de ser submetido às mais horríveis humilhações e torturas.
Ele teve tudo para se sentir frustrado, revoltado e humilhado. Dormiu numa cela húmida que lhe provocou tuberculose e graves problemas respiratórios que o acompanharam até á morte. Como é possível estar encarcerado durante 27 anos e não ficar com ódio a quem o mandou prender?
Mas foi possível. Uma vez libertado fez um percurso inigualável na vida politica transformando-se num humanista notável.
Em 1993. foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz, uma distinção justamente merecida.
Em 1994, foi eleito Presidente da República na primeira eleição multirracial da Africa do Sul. Votaram nesse ato eleitoral mais de 80% de pessoas que nunca o tinham feito antes por impedimento, nomeadamente por serem negros. A adesão às urnas de voto foi tal que nalgumas seções as filas de espera chegaram a atingir mais de um quilómetro.
E foi no exercício de funções políticas que Mandela mais se destacou num Continente conhecido pelo elevado número de ditadores que se arrastam no exercício de funções há larguíssimos anos. Mandela desempenhou as funções Presidenciais durante cinco anos, dando assim um exemplo extraordinário de desapego ao poder.
Ele insere-se numa restrita galeria de líderes com dimensão mundial como sejam Gandhi, na India, Martin Luther King nos Estados Unidos da América e João Paulo II na Santa Sé, que lutaram afincadamente pela justiça social, pela fraternidade e pela paz.
Nelson Mandela, ou Madiba como era carinhosamente tratado pelos sul-africanos, deixou-nos várias frases que nos devem fazer meditar. Dizia-nos ele que “o que importa não é apenas o bem que possamos trazer, mas também o mal que se possa evitar” para a seguir nos lembrar que “o importante não é nunca cairmos, é sermos sempre capazes de nos levantarmos por muitas vezes que nos derrubem” pois todos “devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito, e inspirar esperança onde há desespero.” Nunca deixando de ter presente que “se falarmos com um homem na língua que ele compreenda, isso entra na cabeça dele. Mas se falarmos na sua própria linguagem, isso entrará no seu coração.”
E se dúvidas houvesse quanto à sua humildade basta refletirmos sobre a frase que ele há alguns anos atrás pediu que fosse colocada na lápide da sua sepultura: “aqui jaz um homem que fez o seu dever na Terra.”
Por tudo isto, tão importante como prestar o merecido tributo a Mandela, importa também colocar em prática o seu exemplo e os seus ensinamentos.
É tempo de dizer até sempre a um homem de uma dimensão eterna que tão bem soube perdoar e mesmo nas missões mais difíceis soube, como ninguém, demonstrar-nos que “o impossível é só uma opinião.”