O fim… Os fins… Em fim…

por Amélia Santos | 2015.07.08 - 13:27

 

Li, por estes dias, um livro que, por ter sido vencedor do Man Booker Prize 2011, por ter uma capa atraente e por ter um título suficientemente apelativo – O sentido do fim – (de Julian Barnes), me caiu nas mãos. Um início interessante, que conta a história de Tony Webster, reformado, que se dispõe a refletir sobre alguns episódios da vida passada e que contemplam referências a namoros de juventude, ao seu casamento, divórcio, filhos e netos. Sobre aquelas que foram as suas opções, algumas reações de jovem e os caminhos que escolheu e percorreu ao longo da sua vida. Não achei o livro particularmente interessante. Sobretudo a partir do meio, pouco acrescenta de novo à história, embora o epílogo seja inesperado e surpreendentemente estranho… Mas suscita-nos algumas reflexões muito interessantes, a começar pelo título – O sentido do fim!

Para que o fim de qualquer coisa, de uma relação, de um ciclo ou mesmo da vida, possa, alguma vez, vir a ter algum sentido, obriga a que se reflita sobre ele, sobre o FIM. E, refletir é olhar sob diferentes prismas e pontos de vista e despir as emoções (tarefa efetivamente árdua…) para conseguir o saudável e necessário afastamento daquilo que queremos examinar… Quando o tempo nos permite e nos ajuda a conseguir tal distanciamento, chegamos ao início do processo de compreensão daquilo que levou ao fim, do que ele representa e dos seus inúmeros sentidos… Os fins são sempre geradores de angústias e de sofrimento. E são, por natureza, catalisadores de emoções fortes, de dor, que por vezes até é física. Um fim é uma espécie de morte. E nós morremos muitas vezes, morremos a cada grande mudança, a cada fracasso, mas também a cada sucesso. Deixamos de ser quem éramos! E, sob este ponto de vista, vivemos muitas vidas, encarnamos diferentes personalidades/personagens e, grande parte das vezes, renascemos ao fim de algum tempo…

Voltando ao livro O sentido do fim, o protagonista, resgatando memórias do que foi na sua juventude e idade adulta, pergunta-se, a certa altura, “A minha vida desenvolvera-se ou só se acrescentara?” Dei por mim a refletir sobre isto e na minha própria vida (até, a propósito de um episódio pessoal que recentemente vivenciei e muitas horas do meu tempo me tem consumido…) e concluo que, de facto, é bem diferente acrescentar dias, meses, anos ou desenvolver. Porque desenvolver implica transformação e evolução. Implica algumas mudanças e outras mortes…das quais vamos ressuscitando, à medida que nos reerguemos, à medida que nos transformamos ou metamorfoseamos. Mas esta é apenas uma dádiva de quem pensa, pensa, pensa… De quem reflete sobre o que vive, o que vê e o que lê. De que nos serve viver sem questionar, sem interrogar o que nos rodeia e o que nos vai acontecendo?

E, sim, quando tal sucede, constatamos que mudámos, que já somos outros e olhamos para trás e dizemos o mesmo que Tony Webster: “O eu que eu era há 40 anos pensava assim. O eu de hoje pensa o oposto”. E, neste sentido, somos múltiplos como o nosso Fernando Pessoa. Temos muitas vidas e muitas mortes. Há que aceitar e compreender as transformações do corpo e da alma. Há que aceitar o fim. O FIM é, tantas vezes o princípio. De uma nova vida, de um novo pensamento, de uma nova maneira de estar e ser. O fim pode ser o início. Pode ser a esperança resgatada aos escombros. O fim pode trazer um presente e um futuro melhor.

(A propósito disto, um dia destes, hei-de escrever sobre um livro que li recentemente, esse sim, verdadeiramente genial e que, de alguma maneira, também me transformou, matou alguns fantasmas e deu vida a um renovado “eu”…)

E, hoje, como não poderia deixar de ser, porque morreu a Dra. Maria Barroso, reitero o sentido destas palavras. Este é, para mim, apenas um fim físico de uma grande Mulher, já que ela vai continuar presente na alma e nos gestos de quem muito e sempre a admirou. E, desta maneira, os que sempre a prezaram em vida já a fizeram renascer nas suas frases, na poesia que declamou e sentiu e no seu exemplo de vida.

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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