O fim do mundo

por Eme João | 2015.09.17 - 21:24

 

 

No próximo dia 28 deste mês, iremos ver no céu um fenómeno astronómico chamado lua vermelha. Sempre que existe algo do género há sempre arautos da desgraça e profetas do fim do mundo a espalhar medos e coisas do género.

Mas é precisamente sobre o fim do mundo, ou melhor o fim da humanidade que vos queria falar um pouco. Descansem que não venho fazer nenhuma profecia, com terramotos, cometas ou algo que o valha. A minha imaginação não chega a tanto.

O fim do mundo acontece todos os dias desde os primórdios da existência da nossa espécie. Sempre que morre um ser, o mundo para esse ser chegou ao fim.

Mas nas duas semanas anteriores, aconteceu uma espécie de fenómeno em que parte das pessoas com quem convivemos, mostraram espontaneamente o seu lado mais negro e perverso.

Perante a trágica crise humanitária, que a guerra na Síria tem provocado, esperava que a questão do apoio e solidariedade para com o deste povo aterrorizado que se tornou refugiado de guerra, fosse uma questão fora de questão.

Nunca pensei que fosse necessário, fazerem-se manifestações de apoio à sua vinda, porque esse apoio era o óbvio, numa sociedade ocidental que gaba a sua civilização, e têm como pilares os Direitos Humanos, os Direitos das Crianças e a Convenção de Genebra.

Mas, quando veio o “terramoto” os ditos pilares abanaram. Então parte, da velha e civilizada Europa, mostrou o seu lado cruel e desumano.

70 anos após o fim da 2ª Guerra Mundial, era absolutamente impensável ver a quantidade de gente que de um dia para o outro se tornou xenófoba. Ver seres fazer a saudação nazi, proibida por lei, perante a PSP é inacreditável.

Em duas semanas eu e muitos de vós vimos o impensável.

Vimos de repente, estas pessoas serem acérrimos defensores dos “pobrezinhos” dos sem abrigo. Os mesmos que uns dias antes eram, segundo eles uns parasitas, uns oportunistas uns dependentes de subsídios e quanto toda esta fúria acabar voltaram a sê-lo, exceptuando na época natalícia…

Mas estes grandes humanistas que agora, surgiram como por geração espontânea, nunca fizeram nem farão nada pelos sem-abrigo ou “pobrezinhos” como gostam de dizer.

Bastava passarem uma semana numa acção de voluntariado para perceberem que a quase totalidade das pessoas que dormem nas ruas, recusam ser acolhidas pelas instituições sociais.

Se calhar era mais produtivo, atacar primeiramente as causas que levam um individuo a esta terrível situação, mas isso levantaria muitas questões, varia pensar e tudo isso cansa.

Há também as pessoas que me dizem que apenas têm medo que venham terroristas. E pergunto, mas os terroristas para chegarem à Europa, precisam vir de barco arriscando a vida? Se vêm para matar, faz sentido arriscarem a vida sem antes cumprirem as missões. Não parece fazer muito sentido.

O que me faz sentido, é que em prol de um medo percamos o raciocínio, e entremos no jogo que os terroristas querem. O meu medo, é que efectivamente os refugiados não sejam o cavalo de tróia, mas sim o bode expiatório. E enquanto embalamos os nossos pequeninos ódios, com seres humanos que imploram pelo direito à vida, os terroristas, já cá estejam há muito. Impávidos, serenos, branquinhos e lavadinhos, na esplanada da esquina assistindo como abrutes ao aumento da xenofobia e outros radicalismos e esperando o momento certo, produto do nosso maior erro. A desumanidade.

 

 

 

 

 

 

Nasceu em Lisboa em 31/10/1966. Estudou psicologia no Ispa. Trabalha actualmente no ISS.

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