O fim de uma etapa

por Rui Macário | 2015.02.07 - 15:17

EUDAIMONIA

 

Estamos sensivelmente a meio caminho entre eleições autárquicas e num ano decisivo quanto ao novo (último?) quadro comunitário de financiamento. Estamos igualmente em ano de eleições legislativas (as presidenciais, desde que Aníbal Cavaco Silva se tornou o mais elevado magistrado da nação interessam a muito poucos, pelo desprestígio a que o cargo foi conduzido).

2015 será uma odisseia sem supercomputadores. Ou se assume agora e de uma vez por todas que se quer um determinado modelo social ou será demasiado tarde para em qualquer circunstância regular se poder vir a defini-lo. Não é tenebrista a imagem de um país (de um conjunto de países, em boa verdade) sem alma no sentido em que essa foi empenhada por conta de tudo quanto julgávamos seguro e, enfim, era um empréstimo a curto prazo.

Impera a delinquência da governação a quase qualquer nível de poder. O factor político sobrepõe-se ao técnico com uma recorrência que recupera a noção de “uso e costume”.

Não há muitos anos, afirmaria com alguma dose de certeza que Portugal era um país de esquerda que preferia ser governado localmente por políticas e políticos de direita, nessa mescla “social” (socialista/social-democrata) que o centro político garantia. Há algo na defesa do limoeiro do nosso quintal que nos impede de o querer partilhar aquando das festas de bairro. Podemos oferecer os frutos ou deixá-los apodrecer na árvore mas não nos tirem o direito à decisão. Hoje, estou convicto de que somos assim. Para o bem e para o mal.

Escrevo em parte a propósito do “Observador.pt”, que desde o lançamento venho lendo, nas suas reportagens e sínteses noticiosas; e de quando em quando, atraído pelo título, algumas das suas crónicas/opiniões, com respectivo espaço de comentários. É impressionante a quantidade de pessoas que defende uma ideia, uma corrente, um modelo. Deveria ter aspas já que todos defendemos algo sobre o restante, mas a minha inquietude é com o facto de esse grupo de indivíduos defender que haja APENAS uma ideia, uma corrente, um modelo: da vida pessoal à familiar, da educação à saúde, etc. Tudo embrulhado numa outra demonstração: essa uma ideia é claramente melhor e mais válida que qualquer outra que possa existir e Portugal, sendo pequeno apenas porque vilipendiado nos seus direitos e méritos dá demasiado aos portugueses (sendo a maioria dos portugueses já que apenas cerca de 30-40% dos votantes optam pelas forças de direita). Em suma o dito “Observador.pt” incomoda-me sobremaneira e imagino sempre que foi um funcionário do dito quem escreveu os comentários… espero que sim, ao menos.

Mas o que ocorre com o “Observador.pt” tem espelhos nos restantes quadrantes. O que está mal vem da esquerda ou da direita, dependo do posicionamento do beligerante; o que está bem, obviamente deriva dos inefáveis méritos do sector a que pertence o senhor ou senhora. Só assim se justifica que haja peregrinações a Évora (independentemente da “justiça” da prisão do senhor a que se peregrina). A defesa de algo sem critério ou questionamento – e aqui ressalvando que não se pode questionar constantemente: à questão deve seguir-se uma resposta e uma acção, ainda que na afirmação de que se “não agirá porque…” – é incompreensível e é perigosa. E os dias estão perigosos.

A nível local, nos vários locais do país, permitimos que nada se debata com consciência de chegar a um entendimento, mas sobretudo de se obter um esclarecimento e clareza quanto aos fundamentos de uma decisão política e porque política, operante sobre nós, sobre o nosso pecúlio, tenhamos ou não podido contribuir em maior ou menor grau para a sua criação.

Chega de decisões políticas escudadas na decisão pública. Se é política então que seja deliberadamente política e expressamente tornada pública com todas as suas implicações. Se é para decidir publicamente então, por seu lado, não precisamos de políticos inábeis e incompetentes que tentem navegar na crista da onda de trabalho feito por outros (o Museu Grão Vasco há um ano que vem promovendo a sua própria elevação a Nacional; o “trabalho” do grupo parlamentar do PS foi concertado ou um aproveitamento?).

 

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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