O espartilho

por Rui Coutinho | 2014.05.23 - 10:24

Um grande número de portugueses saúda com agrado a debandada da Troika. Para muitos, este período encontra-se associado a cortes, restrições, privações, e numa situação mais alarmante e custosa, à perda do emprego ou à sua falta.

Segundo o estudo da Kantar Worldpanel, as medidas acomodadas e muitas delas impostas atingiram de forma notória uma franja populacional que denota dificuldades em satisfazer as suas necessidades mínimas. Em 2010 o valor tocou os 19.2%, em 2011 subiu para os 22%, em 2012 roçou os 27% e em 2013 acomodou-se nos 24.7%.

A classe média viu-se obrigada a remodelar o seu estilo de vida em face dos cortes definitivos realizados e do aumento dos diferentes impostos operados. O gasto com roupa foi drasticamente reduzido, os almoços fora de casa substituídos pela marmita, as viagens adiadas e por aqui ficamos…

A entrada da Troika em Portugal conduziu ainda a um estado psicológico deprimente que muito veio condicionar o consumo. A título de exemplo, durante o 1º semestre após a sua chegada, 47% dos portugueses não compraram uma única peça de roupa.

Em termos alimentares esta fase induziu alterações muito notórias. O padrão alimentar dos portugueses regressou a 1980, com uma redução muito acentuada no consumo de sumos, refrigerantes, cerveja, vinho e produtos lácticos, promovendo-se ainda a substituição de carnes ditas nobres por brancas. Neste hiato temporal verificou-se também o aumento exponencial da aquisição de produtos frescos mas sempre em menores quantidades, com o preço a assumir uma importância vital no acto da compra. Nos electrodomésticos registaram-se quebras de 1/3. Neste sentido, é fácil compreender que as constantes promoções agora multiplicadas com maior regularidade passaram a ter como alvo muitos destes produtos.

Os portugueses que até à data transpuseram incólumes esta situação passaram, no entanto, a adoptar uma postura mais racional e menos emocional no acto da compra. A visão desmesurada da aquisição de bens foi resfriada.

Os novos comportamentos dos consumidores obrigaram os diferentes players a desenvolverem estratégias e medidas para se posicionarem de forma mais adequada no mercado.

O Pingo Doce, que muito veio mexer com a lógica instalada das promoções, acaba de anunciar a dilatação do acordo, que vigora já há 3 anos, por mais 1 ano de forma a antecipar o pagamento das facturas em 10 dias aos seus 500 fornecedores nacionais. Esta medida irá permitir a injecção adiantada de 50 a 60 milhões de euros nas empresas de pequena e media dimensão, onde se fornece de fruta, legumes, carne, peixe, vinhos e charcutaria e nas quais a cadeia é responsável pela aquisição de mais de 50% da produção.

A multinacional Nestlé que se abastece com produtos nacionais (84%) e detém em Portugal várias fábricas, acaba de celebrar um contrato com a ANPOC (associação nacional de produtores proteaginosas, oleaginosas e cereais), com as empresas de moagem Ceres e Germen, bem como com 12 organizações que agregam 800 produtores de cereais e leite para a produção de cereais e farinhas (baby foods) de baixos teores de pesticidas (BTP). A iniciativa em causa conduzirá à futura utilização de 130 a 150 mil hectares de terra para um fornecimento regular a médio e longo prazo em quantidade e qualidade de cereais e farinhas.

O apoio técnico a nível agronómico prestado pela Nestlé está garantido e visa baixar os teores de pesticidas, reduzir custos, melhorar os sistemas de monitorização de toda a cadeia de proximidade e valor, bem como incentivar a produção nacional.

Iniciativas como estas são de louvar e enaltecer e por certo constituirão alguns dos muitos utensílios necessários para aliviar e desatar o espartilho em que muitos andam tolhidos.

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

Pub