O ELEVADOR SOCIAL FUNCIONA MAL

por José Carreira | 2016.08.29 - 08:20

 

 

Tive, em tempos, um professor que fez uma radiografia certeira. Disse-nos, não raras vezes, para explicar a desigualdade social e o fenómeno da “reprodução da pobreza”, que para uma pessoa que viva num bairro social estarão reservados os últimos lugares nas escolhas de quem quer contratar um novo colaborador e só está na linha da frente quando se trata de despedir alguém.

O estigma mantém-se em pleno século XXI!

Os nossos irmãos brasileiros têm uma expressão curiosa: “Pão de pobre cai sempre com a manteiga virada para baixo”…

Ainda que se fale muito do “elevador social”, ele teima em não funcionar. Com o eclodir da crise económica e financeira alguns ganhos, conquistados ao longo de décadas, diluíram-se.

Não tenhamos quaisquer duvidas de que partimos todos de pontos diferentes. Nascer, crescer, viver e morrer rico é quase tão provável como nascer, cresce, viver e morrer pobre. Há exceções? Há, sem dúvida, mas são isso mesmo, ou seja, as excepções que confirmam a regra.

O “sonho americano” é uma utopia que poderá ser um bom dínamo catalisador para as nossas vidas, motivando-nos para que tracemos objetivos e lutemos para os alcançarmos, não nos deixando derrotar à partida. Uma utopia que colide há séculos com a realidade. Uma das grandes promessas do capitalismo, que qualquer pessoa pode ser rica independentemente do seu sobrenome, teima em não se efetivar.

O estudo realizado por Guglielmo Barone e Sauro Mocetti “Intergerational mobility in the very long run: Florence 1426-2011[1]”, permite concluir que a maioria dos que tinham maiores rendimentos no século XV continuam a possuí-las na atualidade.

Também a investigação realizada por Maurizio Franzini, Michele Raitano e Francesco Vona – “The Channels of Intergenerational Transmition of Inequality: A Cross-Country Comparision[2] – conclui que nos Estados Unidos a família onde se nasce tem muita importância. Os filhos dos mais ricos têm uma altíssima probabilidade de ser os mais ricos da sua geração. Inversamente, os filhos dos mais pobres têm uma probabilidade muito alta de serem os mais pobres da sua geração. Também no Reino Unido a transmissão intergeracional da desigualdade é muito alta. Além do berço, há dois fatores que também são determinantes e que se interligam com a importância da família: a formação e a rede de contactos.

Não tendo conhecimento de dados relativamente a Portugal, de modo absolutamente empírico, arrisco-me a afirmar que também entre nós a mobilidade socioeconómica é baixa e a desigualdade transmitir-se-á em larga medida de uma geração em geração, uma pesada herança que aprofunda as clivagens sociais, aumentando o fosso entre ricos e pobres.

[1] https://www.bancaditalia.it/pubblicazioni/temi-discussione/2016/2016-1060/en_tema_1060.pdf?language_id=1
[2] http://dipecodir.it/upload/file/Raitano/Franzini,%20Raitano,%20Vona%202011.pdf