O dia em que ouvi uma voz grossa ao fundo do corredor…

por Ana Beja | 2015.09.24 - 08:32

Estava sentada no sofá da sala, a ver televisão, quando ouço a voz de um homem vinda do fundo do corredor. Primeiro não liguei, entretida com o que estava a ver, mas a certa altura, quando me apercebo do som forte da sua voz, resolvo ir averiguar, pois tinha a certeza de que só estava em casa com o meu filho mais velho. Saio da sala, percorro o corredor e o som é cada vez mais grave e forte. E próximo…Passo pelo quarto da minha filha, vazio e chego ao quarto dele. O som está ali. Vem dali, penso eu. Abro a porta e era o meu filho. Ao computador com um amigo. A voz forte que ouvia era a dele. Fico atordoada. Apercebo-me nesse momento que o meu filho deixou de ser um menino e passou a ser um rapaz! Apercebo-me que o miúdo loiro e pequenino, que tanto chamava pela mãe, está um adolescente feito! Com 1m e 75cm e a pesar 70 kg!

Ele, espantado com a minha cara de pânico, pergunta-me se estou bem. Estou bem?? Como é que eu posso “estar bem” se ainda ontem lhes mudava as fraldas e lhes dava papas de arroz sem glúten e hoje já tenho de lhes comprar Clearasil e máscaras de argila para as borbulhas? Não estava preparada para isto!

 

E dás-te conta que 15 anos passaram a correr e que toda a gente te avisou para “os aproveitares enquanto são pequeninos” e pensas “que exagero, passam lá agora!” e acreditas que irão ser sempre os teus bebés, fofos e reboludos, e de repente, como que por magia, estás a viver o refrão do “Não há estrelas no céu”, do Rui Veloso, na tua casa!

 

Dás-te conta que estão a crescer e que lentamente cortam o “cordão umbilical” quando te pedem para irem de fim de semana com os amigos, quando te dizem para os deixares 3 ruas acima da porta da escola, quando se envergonham de te dar beijos em público e quando te pedem para não ires assistir aos eventos desportivos que praticam, porque “vais ser a única mãe na bancada”!

 

Dás-te conta que afinal já tens 2 adolescentes em casa (ela só tem 1 ano a menos) quando não ouvem nada do que dizes e tens de pedir 15 vezes para arrumarem os quartos (sob ameaças, castigos e chantagens). Apercebes-te de que eles estão a crescer, porque já estás fora de moda, pois as “amigas é que têm estilo” e que nunca te soubeste maquilhar porque não tinhas os tutoriais fantásticos para o efeito, no youtube. Dás ainda conta que afinal não percebias nada de computadores e dispositivos móveis, pois dão-te dez a zero no manuseamento dos mesmos!

 

Dás-te conta que estás a ficar mais velha e que eles estão a crescer, quando olhas pela janela e já não os vês a brincar às escondidas com os miúdos do bairro, quando já não te chamam a meio da noite porque estavam a ter um pesadelo e quando já não vais com eles comprar o material escolar. Quando já não querem ir contigo a lado nenhum, mas sim ao cinema com os amigos. Quando já não querem coca-cola e te chateiam para beberem uma Radler. Quando já não andam à bulha no sofá para se sentarem ao teu colo, mas te pedem dinheiro para saírem à noite com os amigos e então depois, quando chegarem, sentam-se um bocadinho contigo no bendito sofá. Reparas que estão enormes quando já não te lembras da última vez em que entraste na Zara Kids, quando demoram 1 hora a tomar banho e “entornam” o frasco de perfume pela roupa abaixo! Quando começam a fazer a barba, a enrolar o cabelo com um ferro quente e quando batem com a porta do quarto na cara um do outro, pois tudo é um verdadeiro drama!

 

Quando o choque passa, acordas… “pois é, já não são meninos! São os meus filhos… grandes. Que começam a ganhar asas e a querer voar”. E compreendes que tudo isto faz parte do ciclo da vida e que ainda bem que é assim. Que a vida está quase por conta deles e que irão errar e bater com a cabeça muitas vezes. Que vais passar para segundo, terceiro e quarto plano e que só muito mais tarde é que irão dar valor ao que dizias. Que daqui a 3 anos estão a entrar na universidade e a viverem sozinhos, num quarto, com uma cambada de colegas, em farras e noitadas quase diárias! E que só tens a casa cheia aos fins de semana para lhes lavar a roupa e preparares as marmitas com a comida para a semana! E quando esse dia chegar (que vai chegar à mesma velocidade como chegou o dia em que ouvi uma voz de homem ao fundo do corredor), olhas para trás e pensas que tudo isto passou a correr e que darias tudo para os voltares a ver, da janela, a brincarem às escondidas com os miúdos do bairro!