O crowdfunding nunca mais será o mesmo…

por PN | 2019.02.21 - 21:26

 

 

 

 

Durante os meus quarenta anos de docência, metade desse período de tempo estive sindicalizado na Fenprof e depois no Snesup.

Aderi a muitas greves que me eram muito lesivas em termos salariais. Um dia de greve = um dia sem salário.

Integrei manifestações que achei feitas por motivos justos, entre elas todas aquelas efectuadas contra as medidas de uma ministra da Educação de má memória, diabolizadora da classe, Maria de Lurdes Rodrigues.

Suportava os descontos salariais elevados por estar consciente da justeza e justiça da reivindicação. A greve era sempre uma atitude de contestação “dolorosa”.

Não consigo entender que uma greve tenha um suporte material para os grevistas sob formato crowdfunding (ou financiamento colaborativo), amenizando/eliminando as consequências que a greve (direito inalienável de qualquer trabalhador) tem na sua carteira.

Desta forma, a greve, no meu parco entendimento, quase se transforma numa espécie de férias, pois se gera imensas contrariedades e constrangimentos no sector (e nos utentes desse sector, com 8 mil cirurgias adiadas, entre outras), poucos ou nenhuns aparenta ter para os grevistas.

Por outro lado, quem são as almas caridosas que contribuem com centenas de milhares de euros nesse financiamento colaborativo?

A TSF, ver link infra, vai mais longe e afirma mesmo que a “Lei do crowdfunding permite branqueamento de capitais. E não apenas na greve dos enfermeiros.”

Por seu turno, a PGR alerta “é possível que ocorram donativos que integrem práticas ilícitas, como o branqueamento de capitais ou concorrência desleal“.

Mudam-se os tempos… Provavelmente esta lei do crowdfunding aprovada por todos os partidos políticos em 2015, para mim, que me aposentei em 2012, veio tarde de mais. Ou, como transformar uma lei de essência “bondosa” e socialmente solidária, com muito sentido de oportunidade, na desvirtuação bilateral do espírito primeiro da greve.

Não quero dizer com isto, de maneira nenhuma, que esteja em desacordo com a luta dos enfermeiros e/ou outras quaisquer classes e o seu direito de lutar por uma causa justa, mas essa coisa do “crowdfunding” mete-me muita confusão, pois, a meu ver, greves financiadas esvaziam-se de razão.

 

 

https://www.tsf.pt/sociedade/interior/lei-do-crowdfunding-permite-branqueamento-de-capitais-e-nao-apenas-na-greve-dos-enfermeiros-10597667.html