O controlo da alimentação mundial

por Rui Coutinho | 2014.10.17 - 13:36

 

 

            A Oxfam International, confederação não-governamental constituída por 13 organizações e 3000 parceiros a actuar em mais de 100 países na procura de soluções para a pobreza, realizou em 2013 um relatório que permitiu determinar o ranking dos 10 maiores grupos alimentares a nível mundial. O documento produzido é o resultado da investigação desenvolvida às políticas adoptadas pelas empresas, ao nível das condições de trabalho dos funcionários, política ambiental, estratégias comerciais adoptadas com os fornecedores e contributo nutricional, apenas para referir os de impacto mais relevante. O valor da facturação e lucro obtido foi também mencionado sempre que possível.

A liderar o ranking encontra-se a Associated British Food, com uma facturação de 15.8 mil milhões e um lucro de 628 milhões de euros. O grupo opera em 48 países. Os negócios têm por base o fornecimento de matérias-primas (açúcar, chá e óleo) para os outros players. O grupo é detentor da marca Primark, em fase de elevada expansão nacional, da Ovomaltine e da Fleischmann.

Na 2ª posição instala-se a Coca-Cola com um volume de facturação de 35.2 mil milhões e lucros de 6.4 mil milhões de euros. O grupo assume-se como um local de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

O 3º lugar é detido pela Danone, líder mundial de lacticínios e derivados, com negócios ainda no ramo das águas engarrafadas. O volume de facturação é de 22 mil milhões e exibe lucros de 1.5 mil milhões de euros.

A General Mills, com uma forte presença nos EUA, ocupa a 4ª posição. Possui uma facturação de 13.5 mil milhões e um lucro de 1.3 mil milhões de euros. Recentemente, tem vindo a envidar esforços significativos para a redução e controlo dos danos ambientais inerentes à sua actividade.

A Kellogg Company, que ostenta a 5ª posição, actua em 180 países e detém uma panóplia de 1600 alimentos. A área de negócios recai nos cereais, derivados e biscoitos. Factura 11.1 mil milhões e apresenta 1.3 mil milhões de lucro. Possui uma academia para a formação dos seus quadros, de elevada reputação.

A Mars Incorporated ocupa a 6ª posição. Nos EUA, a sua área de negócios assenta na produção de rações animais e doces. Marcas como a M&Ms, Milky Way, Snickers, Twix e a Mars estão no seu domínio. A Mars é actualmente a maior compradora de cacau do mundo, destronando do posto a Cadbury. O grupo registou, no entanto, as pontuações mais baixas relativamente às políticas ambientais e fornecedores. O estudo não conseguiu apurar o valor de facturação e o lucro envolvido.

A Monderez Internacional é o resultado da separação entre a Kraft Foods e a Monderez. Ocupa a 7ª posição. O grupo Kraft Foods passou agora a concentrar a sua actuação nas redes de supermercados nos EUA e a Monderez ficou com as conhecidas marcas Cadbury, Nabisco e Trident, entre outras. A facturação revelada foi de 26.8 mil milhões, com lucros de 2.9 mil milhões de euros. As questões relacionadas com a política ambiental, com os fornecedores e trabalhadores, algo “descuidadas”, ditaram a actual posição no ranking.

O Grupo Nestlé revelou o maior volume de facturação, 77.9 mil milhões, e ostenta lucros de 8.4 mil milhões de euros. Posiciona-se no 8º lugar. A multinacional tem vindo a desenvolver avultados esforços na melhoria das condições de trabalho dos seus inúmeros colaboradores, com particular ênfase no trabalho infantil que grassava na apanha do cacau na Costa do Marfim, matéria alvo de várias investigações e documentários amplamente noticiados e de levado impacto mundial.

Em 9º lugar, encontra-se a PepsiCo detentora de marcas como a Pepsi a Mountain Dew, a Gatorade, Doritos, Quaker e Tostitos. Factura 49.9 mil milhões e obteve lucros de 5 mil milhões de euros. A posição que alcançou no ranking decorre da falta de investimento na adopção de medidas para a concepção de alimentos mais saudáveis do ponto de vista nutricional.

No último degrau, encontra-se a Unilever Group, com sede na Holanda. Os produtos do grupo vão desde a alimentação às bebidas e incluem ainda produtos de uso pessoal. O grupo é detentor de marcas como: Lipton, Bem&Jerry e Hellmann, entre outras. Factura 51.5 mil milhões com lucros de 5 mil milhões de euros. Em Portugal, a Unilever possui fortes ligações à holding Jerónimo Martins, titular do Pingo Doce e Recheio. A par da Nestlé, o grupo Unilever foi o que obteve as melhores pontuações nas políticas ambientais, de fornecedores e trabalhadores.

O presente estudo é bem elucidativo do impacto económico que a alimentação tem a nível mundial. As margens de lucro dos diferentes grupos situam-se entre os 7 e os 20% do valor facturado, o que revela muito do apetite e ânsia dos investidores nesta área.

Da panóplia de marcas e produtos comercializados, podemos atestar que a maioria resulta de alimentos transformados e/ou processados, possíveis de agrupar na categoria dos não perecíveis, com ciclos de vida alargados.

Tendo por base os critérios adoptados na avaliação dos diferentes grupos, é possível comprovar ainda que, na maioria dos casos, os aspectos económicos e financeiros nem sempre são possíveis de compatibilizar e harmonizar com as políticas ambientais adoptadas bem como com as premissas relacionadas com os trabalhadores e fornecedores.

A ser assim, talvez se possa afirmar que o ditado “O bom é inimigo do óptimo” neste ramo poderá fazer algum sentido.

 

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

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