“O Cavaco é um cara de fome…”

por João Salgueiro | 2015.10.25 - 17:38

 

No dia seguinte à declaração do Presidente da República eram fortes os ecos do discurso que contextualizou a nomeação de Passos Coelho para 1º Ministro de Portugal.

Já em cima da hora para o início da minha atividade profissional, deslocava-me com alguma velocidade quando me apercebo de alguém a pedir-me boleia. Olhei pelo retrovisor e pareceu-me uma cara familiar, parei.

A viagem foi rápida, mas muito substantiva, acabou mesmo com um tom de que a conversa ainda não tinha ficado por aí. Afinal, após as primeiras impressões, lembrei-me, de imediato, do Senhor e da família, embora já não o visse desde os tempos de infância. No final da curta da viagem, rematou: “com tudo isto não lhe contei algumas das peripécias que eu e o seu pai passámos juntos, mas nos finados volto cá e teremos ainda oportunidade de falar”.

A ordem do dia era outra, o discurso de Cavaco Silva: «esse cara de fome». Atirou o meu companheiro circunstancial de viagem. Reformado, já entrado nas oito décadas, ainda aparenta uma grande energia. Aproveitava as vindas da filha, em serviço, a Viseu para rever a casa de família que possui nas imediações da cidade.

A expressão “cara de fome” suou-me também a algo familiar, o meu próprio pai a utilizava para se referir ao ainda Presidente da República.

Para situar a história, vale recordar a forma como Cavaco apareceu na política. Ainda praticamente desconhecido, veio a desempenhar as funções de Ministro das Finanças e do Plano, no último governo de Sá Carneiro. Após a trágica morte deste, recusou-se a integrar o governo de Francisco Balsemão e abdicou do lugar de deputado para que tinha sido eleito, cerca de um ano antes. Retomando a atividade política, pouco tempo depois, o seu trajeto viria a ficar definido com a inesperada morte de Mota Pinto, vítima de uma ataque cardíaco, e a convocação do célebre Congresso do Casino da Figueira da Foz, conduziu-o, contra tudo o que parecia mais provável, a uma carreira política fulgurante. João Salgueiro e Rui Machete perfilavam-se, então, como os dois candidatos concorrentes ao lugar de Presidente do PSD. A rotura do Bloco Central (com o PS) tinha determinado a dissolução da Assembleia da República, por Ramalho Eanes, e a convocação das eleições de 1985, as quais haveriam de conduzir à vitória do PSD e ao primeiro governo chefiado por Cavaco Silva. Presidindo a um governo minoritário, Cavaco Silva haveria depois de fazer de tudo para suscitar as condições que lhe permitissem alcança uma maioria absoluta nas eleições seguintes. Os milhões que chegaram a rodos da Comunidade Europeia fariam o resto. Mário Soares que tinha assinado o Pedido de Adesão (como 1º Ministro, em 1977), haveria de assistir, agora já como Presidente da República, à assinatura do Tratado de Integração por parte de Cavaco Silva. Pouco depois, dissolvendo a Assembleia da República, Soares deu o empurrão que faltava para coroar Cavaco como o todo-poderoso 1º Ministro que, sustentado por uma maioria Absoluta na Assembleia da República, desbaratou a seu belo prazer a oportunidade de gerir os fundos comunitários de modo a criar as condições de sustentabilidade que, até hoje, continuam a faltar em Portugal. Como prémio, fez-se guindar a Presidente da República em dois mandatos subsequentes, de 5 anos, estando agora prestes a terminar o seu já longo consulado.

Depois de um primeiro mandato em que apadrinhou o governo da austeridade de Passos Coelho, apressou-se agora a deixar, mais uma vez, a sua marca indelével de “líder de uma seita”, como lhe chamou Catarina Martins, ao rejeitar um governo de “forças partidárias antieuropeístas”[1]; ao considerar que “este é o pior momento para alterar radicalmente os fundamentos do nosso regime democrático de uma forma que não responde sequer à vontade democrática expressa pelos portugueses” nas eleições, visando o Bloco de Esquerda e o PCP, os quais, na sua ótica, estão proibidos de participar no governo. Para além do incumprimento da palavra dada – com a sua promessa de não empossar um governo minoritário, Cavaco Silva mostra uma faceta que conseguiu, em geral, esconder nos momentos mais decisivos para a sua eleição, a de personagem que defende uma democracia de si próprio e dos seus. Reconhecendo que um governo formado pela coligação vencedora das eleições pode não assegurar a estabilidade política que o país precisa, considera “mais graves as consequências financeiras, económicas e sociais de uma alternativa claramente inconsistente sugerida por outras forças políticas” que tendo sido escolhidas por mais de 2 milhões e 700 mil votos, não são merecedoras de serem ponderadas como alternativa na sua decisão.

Tudo isto é constrangedor e vem confirmar a ideia que a sua ascensão galopante deu lugar a um finar deslizante para um conservadorismo atroz que põe a nu uma áurea sebastianista que, afinal, desemboca numa configuração salazarenta de autoridade e numa ideia somítica e egocêntrica de democracia.

Neste contexto, os epítetos de cara de fome, “feição pálida, chupada, macilenta” e de fulano muito abatido, nos termos tomados emprestados pelo dicionário, parecem corresponder a alguém corroído pela sua própria história que, afinal, mais uma vez, acaba mal.

Se nos lembrarmos que um antigo companheiro de rota lhe atirou com a imagem do eucalipto que seca tudo à sua volta, da perseguição que empreendeu ao único português que venceu o Prémio Nobel de Literatura (Prémio que só mais outro português recebeu, na Medicina), a quem não concedeu honras de Estado e marcando o seu funeral por uma silenciosa ausência, das vingançazinhas que fez a Mário Soares e a Sócrates, poderíamos mesmo ser levados a pensar que o epíteto “cara de fome” não traduz uma abrangência suficiente para tamanha desfaçatez.

É caso para dizer, como ouvi também, muitas vezes, que este Cavaco “nem para o lume serve”, o gelo espraiado, de tão funesto, leva-me a tomar como minhas as palavras lidas no facebook de alguém que me é próxima: “que pena já nem sequer lhe podermos desejar que termine o seu mandato com dignidade…”

 

[1] Esta questão da Europa merece ser equacionada, até mesmo os termos da sua própria existência, mas nunca nestes termos e contexto.