O “Autocarro do Arrábida”

por João Salgueiro | 2014.09.12 - 14:30

 

Tal como tinha ficado aprazado e confirmado pelo telefone, na véspera, às oito horas em ponto, o “Autocarro do Arrábida” partiu de Viseu, em direção ao Hospital da Arrábida, em Gaia.

Para mim, esta foi uma inovação que eu quis experienciar pela primeira vez.

Numa das prescrições de rotina que, anualmente, me são aconselhadas pelo Médico de Família – e dada a aparente ausência de resposta na nossa cidade –, o Hospital da Arrábida surgiu como uma alternativa. Esta organização privada, que procura alargar a sua área de influência e dar resposta às necessidades dos cidadãos do interior, dispõe de um autocarro que, gratuitamente, transporta os clientes entre Viseu e Gaia e regresso, todas as quartas e quintas- feiras.

Quando cheguei junto à Central de Camionagem, quinze minutos antes das oito horas da manhã, lá estava o autocarro. Dirigi-me ao motorista: «Bom dia, é o Autocarro do Arrábida

– «É sim», respondeu-me o condutor. «Diga-me o seu nome, por favor». Disse-lhe o nome, o motorista confirmou a minha inscrição numa lista e respondeu: «Entre, por favor». Tamanha gentileza deixou-me reconfortado e, ao entrar no autocarro, já quase cheio, disse: «bom dia!». E as pessoas presentes responderam de volta.

Os restantes passageiros foram entrando e tomando o seu lugar, enquanto se ouviam conversas de circunstância com o à-vontade de quem já não viajava pela primeira vez. Para mim, foi a estreia e, embora alguns rostos me parecessem familiares, não encontrei ninguém do meu círculo mais próximo.

Pouco tempo após a partida, ecoa uma voz que se sobrepõe: «Senhor motorista, aquela senhora perdeu o autocarro! Vem ali um automóvel que está a apitar!». O motorista, serenamente, abrandou e parou o autocarro. Aguardámos alguns instantes e a senhora logo entrou.

«Bom dia», diz a senhora. – «Bom dia», responde o motorista, «quase ficava em terra».

– «É verdade, desta vez, atrasei-me um bocadinho», respondeu a passageira.

A viagem decorreu sem incidentes e, cerca de 1 hora e 20 minutos depois, estávamos à porta do Hospital da Arrábida. À saída do autocarro, surge uma senhora que, solicitamente, dirige-se aos passageiros e diz: «bom dia, as pessoas que já conhecem, façam favor de entrar, as pessoas que vêm pela primeira vez podem vir comigo, eu ajudo». Assim fiz. Juntei-me ao pequeno grupo de novatos e segui a senhora. Esta guiou-nos simpaticamente através de um Centro Comercial e introduziu-nos no hall de entrada do Hospital.

Fomos encaminhados para junto de uma máquina de senhas e depois de nos distribuir uma a cada, pediu para estarmos atentos ao ecrã onde iam passando os números da senha e o número de uma das 24 assistentes que estavam ao serviço. Rapidamente chegou a minha vez, fiz a inscrição e fui encaminhado para a primeira secção.

Aguardava já a minha vez para fazer o primeiro exame quando, de repente, surge uma funcionária que, qual hospedeira de bordo, distribuía café ou chá. Aceitei um chá. Pouco depois, alguém me toca levemente no ombro, «Então, está tudo a correr bem?» Era a senhora que antes nos tinha guiado desde o autocarro ao Hospital. Logo de seguida, fui chamado para o primeiro exame e, de forma subsequente, efetuei os restantes. «Tudo em ordem», diz o primeiro médico. «Se quiser aguardar um pouco, dou-lhe já o relatório». No caso seguinte, o médico, acrescentou:

– «Temos todo o gosto em recebê-lo por cá, mas só se precisar. Não queremos obrigá-lo a vir de Viseu, de propósito, para levantar o relatório».

– «Obrigado Dr., foi um gosto», respondi eu.

Em duas horas, passei por três secções, fui atendido de forma muito profissional e acolhedora por médicos, técnicos e funcionários, fiz os exames necessários (três), recebi os respetivos relatórios, procedi ao pagamento, depois de feitas as deduções da comparticipação da ADSE e fiquei pronto para almoçar. O Centro Comercial contíguo resolveu-me esse problema; e ainda me proporcionou a possibilidade de fazer um périplo pelas livrarias e outras lojas comerciais, bem como para dispor de alguns momentos de lazer e relaxamento.

Cerca de 15 minutos antes das dezasseis, hora estabelecida para o regresso a Viseu, lá estava o “Autocarro do Arrábida”. Estacionou no local combinado e, depois de acondicionados todos os passageiros, regressámos comodamente à cidade de Viriato.

No entretanto, ainda tivemos a oportunidade de rever a simpática guia da manhã que, de forma afetiva, ia entabulando conversa enquanto procurava aquilatar se tudo tinha corrido bem. No meu caso pessoal, olhou para mim, sorriu e perguntou: «Então, correu tudo bem? Nunca mais o vi!» – «Pois é, andei por aí, mas correu tudo bem, obrigado».

Esta foi a minha primeira experiência num Hospital Privado e dela só posso guardar boas recordações. Como comentava a dado passo a minha companheira de viagem, no regresso:

– «Ai esta foi a sua primeira vez? Vai ver que, a partir de agora, não vai querer outra coisa. Somos tão bem tratados! E quando ficamos internados? São todos tão disponíveis! Sabe, sentimo-nos aconchegados».

Sim, é este mesmo o termo, «aconchegados». Foi mesmo assim que eu também me senti.